Ando às voltas com a leitura dos poemas de “Flores do Mal”, do poeta francês Baudelaire. Historicamente, afirma-se que Baudelaire teria lançado as bases da poesia moderna, influenciando a poesia internacional de tendência simbolista. De sua maneira de ser originaram-se na França os poetas “malditos”. Foi inspirador de outros escritores considerados “não-convencionais” para sua época, como Rimbaud e Lautréamont, e teria influenciado, ainda, artistas como Verlaine e Mallarmé.
Movido pela curiosidade de conhecer mais sobre o autor dos versos inquietantes, pesquiso um pouco sobre sua vida. Dentre outras coisas, descubro que o poeta Charles-Pierre Baudelaire nasceu em Paris em 9 de abril de 1821. Após desavenças com o padrastro, foi obrigado a interromper seus estudos, iniciados em Lyon, para uma viagem à Índia. Acabou ficando no meio do caminho, nas ilhas Maurício. Ao regressar, torrou seus bens na boemia parisiense, onde conheceu a atriz Jeanne Duval, uma de suas musas. Outras seriam, depois, Mme. Sabatier e a atriz Marie Daubrun. Endividado, foi submetido a conselho judiciário pela família, que nomeou um tutor para controlar seus gastos. Baudelaire permaneceu sempre em conflito com esse tutor, Ancelle.
Uma surpresa em sua biografia: Baudelaire criticava a fotografia, invenção contemporânea à sua época, dizendo que ela não poderia ser considerada como “arte”. Eu, como amante das duas expressões artísticas, vejo-me envolto em algumas reflexões.
Já sabemos que a arte acompanha a marcha do tempo, evoluindo e modificando suas concepções. Aponta novos princípios em substituição ao processo anterior, e cada fase que aporta significa que uma escola lançou sua âncora ao fundo, emergindo outra à superfície das águas.
Charles Baudelaire viveu sua idade adulta no cerne de uma civilização dominada por antagonismos e ambigüidades. Em Suas “Flores do Mal”, o poeta fala destas ambigüidades. Traça correspondências entre o mundo material e espiritual, revolucionando a arte poética. Esta renovação inaugurada por Baudelaire faz germinar o Simbolismo, que vem, justamente, substituir a ideologia realista-naturalista. Os novos poetas e artistas exprimem o sentimento de uma corrente que fala da decadência. Verlaine, inclusive, contemporâneo de Baudelaire, adota como temática de alguns sonetos o declínio da civilização greco-romana. Baudelaire, por sua vez, apresenta o homem como um ser incapaz de se localizar no mundo, perdido.
Tornam-se, então, compreensíveis os questionamentos do “decadentista” Baudelaire. Afinal, o daguerreótipo, em sua essência, é a máquina concebida para registrar a realidade. A máquina fotográfica propõe-se a ser o instrumento da arte realista, a arte natural. Mas, questiona Baudelaire, a realidade é decadência, a realidade é estupidez das massas, é turbilhão caótico. A arte, na visão baudelairiana, não deve ser corrompida por esta vulgar tentativa dos realistas em firmar-se como “construtora’ do belo. Só a arte pode exprimir beleza. E a realidade, expressa pela fotografia, é dura, caótica, crua, paradoxal, repleta de valores decadentes e instáveis. Como pode, replica Baudelaire, que a fotografia seja provedora de toda garantia de exatidão, como acreditam os defensores da “arte fotográfica”’, se a realidade, em si, não é exata?
Para nós, contemporâneos da fotografia digital, da televisão e da fotografia de alta definição, da arte concreta, da vídeoarte, da poesia eletrônica, da telefonia celular, dos clipes musicais altamente editados, talvez possa soar absurdo questionar-se a possibilidade da fotografia como arte. No entanto, é necessário voltar às linhas iniciais desta digressão: a arte acompanha – ou, pelo menos, tenta acompanhar – a marcha do tempo, evoluindo e modificando as suas concepções. Habituamo-nos já, pelo corriqueiro e usual, a colocar a fotograia no rol das nobres artes. Esta discussão, puramente conceitual, já não tem espaço preponderante. Grandes fotógrafos fizeram e fazem de seus “cliques” momentos de extrema arte, onde o real, o poético ou o imaginário se mesclam e se fundem, em indiscutíveis manifestações artísticas.
O poeta Baudelaire, como porta-voz revolucionário de uma época, foi ao mesmo tempo o questionador daquilo que constitui ameaça à arte pura, consciente. Na tentativa de defesa da arte, tentou delimitar os campos de atuação de uma e de outra expressão: “a fotografia deve, portanto, retornar à sua verdadeira tarefa, que é a de secretária das artes e das ciências”. Assim como, em tempos mais tarde, também seriam questionados o Cinema, a televisão, o Vídeo. Assim como, hoje, questiona-se, ainda que pouco, a possibilidade “artística” das novas tecnologias. Será arte um elaborado poema concreto, em vídeoarte, questionam os mais puristas? Será arte uma música composta em acordes “midi” ou “wave”, através de um sintetizador? Qual o valor artístico de contemplar a Mona Lisa na internet? Talvez o poeta Baudelaire, se nosso contemporâneo, estremecesse ante à possibilidade de fazer um tour pelo Louvre virtual, nas páginas da web.
Fotografia é arte? Durma tranqüilo, Baudelaire! Quem sabe, hoje, poeta, estivesse você também em meio a bits e bytes, nas ondas, no ar, em big closes, em montagens artísticas pelo vídeo, pela TV, pelo monitor de 42 polegadas em HDTV, fazendo pose, desfrutando dos seus 15 minutos de fama, preconizados por outro revolucionário de nome Warrol…
Fotografia é arte? O poeta Baudelaire não acreditou. Uma pena! Tudo bem… Viva a vídeoarte! Vivam os outdoors elaborados de grandes campanhas! Viva a arte fotográfica! Ah, e a propósito: “click”, sorria, Baudelaire! Você está sendo fotografado!
Quem já visitou esta “casa” alguma vez, já percebeu: o espaço foi remodelado! Varanda com vista para sei lá onde… Janelas abertas para o indefinido… Tudo, como sempre, revirado e misturado, como é toda casa. Os lares falsamente arrumadinhos que me perdoem, mas desordem interna na casa humana é real e fundamental.
Sim! O blog mudou de servidor. E, aproveitando o peristaltismo imposto pelas ondas dos bits e bytes, está sendo tudo repaginado.
Tentarei ser mais frequente - esquisito, ser frequente assim, sem trema… Mas não prometo. Nem pra mim mesmo. Quanto mais pra quem me lê.
Mas juro que tentarei.
Aos poucos, irei publicando alguns dos posts do blog anterior. Por enquanto, estou sondando, percebendo como lidar com os novos talheres, sentindo os aromas, preparando temperos para outros tantos peristaltismos.
Fica o convite… Para saborear comigo gostos variados. Ruminações sobre tudo. Bons e maus humores… Mascando, mastigando… Esse prato mágico que é bom de deglutir: a vida!
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