Imaginemos uma viagem. Para início de conversa, imaginemos uma viagem desejada, sonhada. Tal característica será importante, na metáfora que iremos empreender ao longo desse breve texto. Pensemos, ainda, em outros traços da viagem. Ela não será um ato solitário. Embora muitos viajantes prefiram colocar sua mochila às costas e sair pelo mundo, a jornada será um empreendimento coletivo – como tal, deverá ser boa para todos que nela estiverem.
Pronto! Iniciada a nossa metáfora, aventuremo-nos por ela. Para o passeio, há algumas decisões iniciais a serem tomadas. Pode parecer bastante óbvio, mas a primeira delas é: para onde ir? O viajante solitário poderia postar-se à beira da estrada, dedo polegar como principal instrumento, pedindo carona para onde o destino o levasse. Para um grupo, onde estamos pensando em acolher perfis diversos, isso se torna mais complexo. Então, o destino para os viajantes configurará outras importantes resoluções. Praia ou campo? Grande cidade ou interior? No próprio país ou exterior? Lugar sofisticado ou rústico? É provável que alguns fatores intrínsecos se misturem no momento da escolha. Citando alguns… Quanto tempo o grupo terá, para viajar? Férias de trinta dias, apenas um feriado esticado ou um breve final de semana? Quais os recursos financeiros disponíveis? Todos podem esbanjar, sem se preocupar com as despesas ou é preciso prudência nos gastos? Com a consciência de recursos, como será o deslocamento: de carro, de ônibus, de avião – quem sabe um cruzeiro marítimo?
Durante todo esse processo preparatório, a viagem em si ainda não aconteceu. Outros elementos terão, inclusive, que ser pensados: a roupa ideal a ser levada e a melhor bagagem para acondicioná-la. Reservas de hotéis e compras de passagens, passaportes. Ufa! Vacinas e atestados de saúde! E, claro! Máquinas fotográficas, filmadoras, pilhas, carregadores. Para os mais preparados e detalhistas, mapas, guias e, se for necessário, um GPS! E lá vão os nossos viajantes, felizes – é o que esperamos, depois de tanta coisa! Mais que felizes, entusiasmados, empolgados com a jornada. Até o destino final, no entanto, outras decisões podem ser demandadas. Um vôo cancelado e tudo precisa ser repensado. O boletim meteorológico afirma que o tempo irá mudar – quem sabe precisem adiar a época de viajar? No meio do caminho, uma queda de barreiras. Ih! E a máquina fotográfica, que alguém esqueceu? Quem sabe desenhar, meu Deus?
Notem que, em nenhuma parte dessa metáfora, tão familiar para todos nós, utilizei as palavras PLANEJAMENTO ou AVALIAÇÃO. Mas o significado delas esteve presente em todos os momentos, em cada gesto, desde a decisão por viajar, passando pela escolha da companhia, do roteiro, do destino, do período, da forma como isso será feito. Muitos profissionais temem essas palavras, como se elas representassem o lado ruim e perverso do processo de trabalho. Na verdade, planejar e avaliar são condições presentes em qualquer ação humana, mesmo que não pensemos, conscientemente, que isso está sendo feito.
Em Educação, planejamento e avaliação, de forma crítica, permanente e em todas as etapas do ensino-aprendizagem, são fundamentais para fazer a diferença em termos de qualidade e eficácia. Em Educação a Distância isso não é diferente. Perguntas iniciais com responsabilidade social, ética, respeito às potencialidades do educando e às limitações do educador são imprescindíveis. Por exemplo: para que tipo de formação pretendemos contribuir? Em nossa metáfora inicial, equivale ao “para onde vamos?”. Outras decisões imprescindíveis: temos recursos suficientes para alcançar nossas metas ou eles precisam ser adequados à realidade sem deixarmos de empreender esforços – não podemos desistir de “viajar”, mesmo que a verba mostre-se pouca; que tal procurar um lugar mais perto, que nossa carteira consiga bancar?
O olhar atento do planejador, em EaD, deve exercitar, sempre que possível, o detalhismo, pensando em cada face da “jornada” que terá pela frente e também durante todo o processo em que estarão juntos alunos e educadores. Notem que, na metáfora aqui citada, podem acontecer acidentes de percurso. Imaginem se, ao termos uma estrada intransitável à frente, todos os hipotéticos viajantes sentassem à beira do caminho e começassem a chorar? Situação compreensível, mas em nada prática. Mas é o que costuma ocorrer, com muita freqüência, quando, por exemplo, um ambiente de aprendizagem apresenta problemas, um chat tem instabilidades no servidor ou um conteúdo não pode ser aplicado em tempo hábil. Avaliar e aplicar ações de mudança de percurso, replanejar, reavaliar, novamente planejar, tornam-se, assim, parte do trabalho que não pode ser destacada ou descartada.
O mais importante é perceber que as metas, na fascinante viagem traduzida em ensino-aprendizagem são o desenvolvimento humano, a aquisição de competências, a assimilação de conteúdos, a mudança de posturas, a qualificação permanente de pessoas, o diálogo e a produção de conhecimentos. Como em nossa metáfora, é relevante que os participantes desse processo tenham olhar crítico, mudem de rotas quando necessário, mantendo o foco final e ajustando ferramentas, processos, conteúdos. Ou, se preferirem, trocando malas pesadas por confortáveis bagagens, bússolas confusas por GPs mais precisos, guias rigorosos por companheiros de viagens mais flexíveis e bons de estarem ao lado.
Tutores e alunos, em EaD, precisam, assim, ter a avaliação e o planejamento como aliados para uma jornada promissora, responsável, prazerosa e, acima de tudo, eficaz. Remetendo à nossa metáfora inicial, com certeza, ao final dessa fascinante jornada, teremos viajantes modificados para melhor, com muitas boas lembranças de percurso e muitas histórias marcantes para contar.
(Ney Mourão, além de proprietário desse blog, é jornalista e educador. Presta consultoria em Educação e Comunicação e é tutor em cursos de Educação a Distância)
No momento em que escrevo essa pequena reflexão, as primeiras-damas de vários países das Américas estão discutindo as perspectivas de estratégias que podem ser oferecidas para melhorar a qualidade de vida dos idosos. É a XIV Conferência de Primeiras-Damas das Américas, que acontece em San Salvador. Lá estão as primeiras-damas de Honduras, Xiomara Castro de Zelaya; do Suriname, Liesbeth Venetiaan-Vanenburg; do Paraguai, María Gloria Penayo; do México, Margarita Zavala Gómez; da Guatemala, Wendy de Berger; do Panamá, Vivian Fernández de Torrijos; da República Dominicana, Margarita Cedeño de Fernández: de Trinidad e Tobago, Jean Ramjohn-Richards; e da Colômbia, Lina María Moreno de Uribe. O Chile está sendo representado pela diretora sócio-cultural da Presidência, María Eugenia Hirmas, e o Equador por Pierina Correa Delgado, irmã do presidente Rafael Correa. Até os Estados Unidos, com fama de não ligar pra essas coisas, enviou a secretária adjunta do Departamento de Saúde e Serviços Comunitários, Josefina Carbonell. A Costa Rica marca presença através da encarregada do Escritório de Gestão Social, Claudia Corrales Bolaños.
Na lista acima, o leitor deve ter procurado o nome de uma certa primeira-dama de um país continental, nas Américas, latino, cuja população de idosos é crescente e seus problemas, idem. Na relação que acabo de citar, meu leitor deve ter achado que cometi um equívoco, por não dar relevo ao nome de uma primeira-dama de um país cuja desigualdade social atinge aos idosos como um desafio considerado, hoje, emergencial. Um país cujas tradições culturais não respeita aos mais velhos e os considera, muitas vezes, como algo que deve ser descartado, abandonado.
Não é engano. Essa senhora não está! Em primeira instância, até poderíamos pensar que a sua ausência tem origem em uma agenda social importante e que, justamente na presente data, ela tem encargos relevantes para prestar à Nação. Mas não! Ela não está, simplesmente porque não tem um papel social. Aliás, ela não tem papel nenhum! É um mero peso de papel. Irrelevante, sem destaque, natureza morta, paisagem sem relevo.
Em toda a história das nações, as primeiras-damas representam o lado social de uma gestão. Por muito tempo, chegamos a ouvir a declaração de que por trás de um grande homem haveria sempre uma grande mulher, que o inspiraria a tomar as decisões mais acertadas, que o conduziria, com mãos nem sempre reveladas, mas sempre presentes, pelos caminhos mais corretos – e, quando não tão corretos, por diversas ocasiões chegou-se a apontar que a influência delas poderia ter sido a causa de equívocos dos grandes dirigentes.
A primeira-dama, hoje ausente da Conferência em San Salvador, não foi dotada, pela natureza, de nenhum mal que a impeça de se deslocar. Não tem nenhuma transfiguração natural, com exceção das excessivas modificações artificiais que provavelmente deve ter feito em sua face, para parecer mais jovem. Tem, aparentemente, a rigidez saudável de quem poderia estar com a mão na massa como agente transformadora. No mínimo, convidando as suas amigas da hoje alta sociedade que galgou para um chá beneficente ou coisa semelhante.
Mas a primeira-dama a que me refiro nesse texto que jamais será lido por ela – o que lerá ela, gostaria de saber; ainda existem revistas de fotonovelas? – não é dada a esse tipo de preocupações. Nossa mídia já demonstrou que ela andou preocupada, certa ocasião, com a cor do seu vestido ou o estilista mais adequado para determinada solenidade. Solenidades! Sim! Esse é, evidente, um gosto dessa primeira-dama ausente às discussões de San Salvador. Todas as solenidades onde está seu marido. Decerto por não ter tido oportunidades de estar presente outrora, em determinados meios sociais, agora ela faz questão de comparecer, sempre.
Foi inaugurada uma ponte? Lá está ela, como se sua presença fosse deveras relevante. Foi assinado um convênio para qualquer que seja a coisa? As câmeras mostram o marido e, ao lado, quem faz pose de importância? Adivinhem! Acertaram, se disseram o nome dela. Ela integra praticamente todas as comitivas internacionais, seja para ouvir o marido falar de paz, de petróleo, de relações internacionais, de educação.
A comunidade internacional, se estiver atenta àquele inexpressivo peso de papel humano, deve inferir, de forma compungida, que a primeira-dama que aqui toma meu tempo de reflexão possui certamente uma deficiência rara: é dotada de mudez. Sabemos que não existem mudos. A expressão é pejorativa e incorreta, já que todo surdo é capaz de se expressar, através de linguagem própria, gestos e até mesmo pela emissão de sons. Alguém que lê essas linhas já ouviu a voz dessa senhora?
Os países do mundo, infelizmente, se tomarem como referência essa primeira-dama como a imagem da mulher local, pensarão que as integrantes do sexo feminino dessa Nação são seres inexpressíveis, atrelados a figuras masculinas, sem nenhuma competência ou poder de ação. Acreditarão que todas fazem parte de uma sociedade marcada pelo patriarcado machista, onde mulheres são enfeites, pesos de papel, que cumprem a função – social? – de acompanhantes. Zero à esquerda, que nunca falam, apenas ouvem, sorriem, acenam.
Interessante saber que essa primeira-dama não é, de todo, uma mulher sem iniciativa. Ela fez questão de garantir aos filhos, segundo ela, “a possibilidade de um futuro melhor”, conseguindo para eles uma segunda cidadania. Terá a casa dos filhos para passar a sua idade avançada, quando enfim as transformações artificiais já não conseguirem esconder que não é tão jovem. É bem provável que continue não se preocupando com as questões que dizem respeito aos problemas dos idosos no país. Terá, bem certamente, que dedicar grande parte do seu tempo à escolha dos vestidos para acompanhar o marido em outras tantas solenidades.
Infelizmente, a Nação onde hoje ainda habita essa primeira-dama acostumou-se com tudo. Em sua história, já teve outras primeiras-damas com atuações dignas de entrar para a História, com agá maiúsculo. Criaram órgãos de assistência a desvalidos, atuaram de forma relevante em causas sociais. Mas tem achado natural e normal que a sua atual primeira-dama seja apenas um peso para os seus bolsos, viajando às custas de seus impostos e contribuições obrigatórias; vestindo, comendo e vivendo às custas dos descontos no que ganham. Peso. Peso de papel.
Talvez seja bom que ela não esteja mesmo presente, na reunião das primeiras-damas. O que faria, lá, um peso de papel?
Houve um tempo em que tão importantes quanto as chegadas eram os percursos, as trajetórias para se chegar. Importava, mais que o destino, a emoção do caminhar. Houve um tempo em que os viajantes não tinham sido, ainda, contaminados pela tola pressa que não permite apreciar a pulsação e o encanto de um bilhete entre os dedos, roçando vontades de ir, num sem-pressa misturado ao anseio de encontros.
Houve um tempo de paisagens por entre as janelas. Houve um tempo de estações iluminadas, bandas de música anunciando partidas, lenços brancos úmidos de lágrimas, promessas de retorno – algumas que jamais seriam cumpridas. Houve um tempo de trilhos entre pedras, cortando distâncias no ritmo de corações batendo.

Ah! Sim! Houve um tempo de corações batendo! De beijos roubados em meio à profusão de abraços. De abraços mais fortes em meio ao som de apitos e resfolegar de fumaças. Houve um tempo em que a lua, sorrateira, iluminava a vida, iluminava a alma, iluminava partidas, iluminava chegadas.
Houve um tempo de locomotivas, de vapor, de bancos de madeira. Malas de couro, com cheiro de lembranças. Encomendas, algibeiras, crianças correndo, acenos, distâncias aos poucos se fazendo… Ausências…
Houve um tempo de curvas, riachos entre montanhas, cachoeiras perdidas entre matos, abismos! Ah! Que vontade de voar. Mas sem pressa, que neste tempo de sonhos, a alma pede calma! Houve um tempo de debruçar-se na janela e suspirar, desejando parar o curso do passeio e nos deixar ficar – atravessando como um rio, com serenidade, o vale da existência.
Houve um tempo de não ter medo… Um tempo de poucas armas, nenhuma armadura. Um tempo de não ter medo de puxar prosa com o viajante ao lado. Houve um tempo para se importar com o outro. Houve um tempo para ser irmão, solidário na mesma viagem. Houve um tempo de compadres, um tempo de conversas infindáveis ao fogão-de-lenha. Houve um tempo de chegar junto.
Houve um tempo de trens. Um tempo de trens. Um tempo de trens. Um tempo de trens. Um tempo de trens. Um tempo de trens. Vagões e vagões cortando caminhos sem fim.
Tenho observado alguns “jeitos” novos de presentear que me incomodam e que têm muito a ver com essa modernidade esdrúxula e esquisita em que vamos nos embrenhando, sem notar.
Tenho declarada implicância por dois novos hábitos da etiqueta social, que faço questão de deixar anunciada, para que ninguém se arrisque a me convidar. Vamos lá.
O primeiro é uma nova forma de brincar de amigo oculto. Em Minas, chamamos de “amigo oculto” a brincadeira que, na maioria do Brasil, batizaram de “amigo secreto”. Todos devem conhecer. Acontece quase sempre no final do ano ou quando alguém cisma, em algumas destas vivências corporativas: você sorteia um papelzinho dentre muitos e terá a responsabilidade de presentear, como um “amigo”, a pessoa cujo nome está ali escrito. O jogo pode reunir os amigos do escritório, os familiares durante a ceia de Natal e, mais modernamente, até desconhecidos presenciais, através de páginas especializadas na internet. Brincar de amigo oculto envolve expectativas: o que darei?, o que ganharei?, como vai ser a entrega?, será que vou agradar? Envolve memórias de participações em que você presenteou com algo que daria para si mesmo e ganhou um elefante de papelão com tromba dourada que você imaginou, na hora, onde iria enfiar – o elefante inteiro, e não apenas a tromba! E aquele ano em que você bateu pernas por três semanas, procurando algo que agradasse ao seu querido amigo, pesquisou, caprichou no embrulho e acabou saindo da reunião com um par de brincos de latão que emitem raios – logo você, a pessoa mais discreta da repartição? Ai, que vontade de fazer um vodu, não? Eu, por exemplo, já ganhei um… deixa pra lá! Vai que meu presenteador está lendo esse texto, a uma altura dessas das coincidências virtuais.
Até aí, não estou ponderando sobre nenhuma novidade. Mas a grande invenção da modernidade é uma brincadeira de “rouba-rouba” durante o amigo oculto. Funciona mais ou menos assim: você leva o seu presente, que comprou para a pessoa que você sorteou. E lá, na hora agá, algum gaiato sugere: “vamos brincar de rouba-rouba”? Ora, que fofo! Começa a história esquisita, então. O primeiro a ganhar um presente abre o seu embrulho. O objeto fica na roda e, a partir dali, em sequência, os demais participantes podem escolher entre ficar com o seu próprio presente, fechado, ou “roubar” um outro, já aberto, no círculo de objetos.
Minha implicância não é pela brincadeira em si, mas pelo que ela gera. A partir dali, começa a disputa – na maioria das vezes pouco ética – pelo “melhor” objeto. O mais cobiçado é escolhido, “roubado” várias vezes, sob o olhar estupefato e revoltado de seu ganhador original. Enquanto isso, um objeto cujo presenteador teve um gosto não lá muito feliz vai ficando esquecido lá na roda, sob a chacota e os cochichos dos demais – e, claro, vai virar a piada do ano nas conversas de bastidores dos participantes do jogo. Não é “a cara” de uma modernidade pouco ética, onde importa, mais que o gesto do presentear, a estratégia do “ganha-ganha”? Creio que essa brincadeira, às avessas, deveria chamar-se “inimigo declarado”. Onde está a magia de se tentar, ao menos uma vez no ano, declarar um gesto de amizade? O presente, no amigo oculto, não é a materialização pura e simples de um compromisso de participação em uma etiqueta social, mas a concretização de um momento de encontro, de abraço, de sinergia com os demais – ou, pelo menos, deveria ser assim. Roubar do outro o que ele ganhou significa, para mim, exercitar o gesto de surrupiar dele um instante fugaz de alegria – e disso a gente tem mais é que fugir, e não praticar! Portanto, se alguém tiver a ideia brilhante de brincar de “rouba-rouba”, já sabe: estou fora! Agarro-me ao presente ganhado, com unhas e dentes. E ai de quem tentar roubar o que meu amigo oculto acredita que foi o melhor para mim – fazer o quê, se terei que conviver, pelo menos por uns dias, com meu elefante da tromba dourada, até que, descuidadamente, esbarre o cotovelo na peça tão querida e a veja espatifar-se no chão…
Outra atitude que vem ganhando expressão são os latões ou cestos ou sacos gigantes para receber presentes nas festinhas de aniversário. Quem foi o indelicado e grosso que inventou essa norma de etiqueta moderna? Não sabem do que estou falando? Simples: você chega com seu presente, lindo, com um laço de fitas que passou horas aprontando, com um papel deslumbrante e, logo à entrada da festa, lá está: um latão, um baú ou um cesto imenso, onde você deverá depositar o seu mimo, para que o aniversariante “veja depois”. Ora, bolas! Estou acostumado ao gesto de abraçar e entregar à pessoa o meu presente e ver como será o brilho em seus olhos. Quero vê-la rasgar o papel e desfazer o nó dos seus laços, como se desfaz a trama sutil e boa da magia da amizade. Nas festas mais “chiques”, andam até contratando uma recepcionista, para receber os presentes e escrever, nos mesmos, de quem é, para que o aniversariante “saiba mais tarde”. Ora, duplas, triplas, quádruplas bolas! Xô, recepcionista! Meu negócio é com o aniversariante! Vem cá, eu te conheço? “Mas o aniversariante não tem tempo agora. Precisa dividir as atenções com todos”, tentam me explicar. Tudo bem! Agarro-me ao presente e, quando o aniversariante tiver um segundo sequer para que eu possa dizer-lhe que vim e que trouxe-lhe o que acredito como um “presente”, dou-lhe um abraço e lhe presenteio. Já que é para “ver depois”, ele pode, então, passar lá na minha casa, qualquer dia desses, e receber o presente, não pode? E eu, claro, vou comer salgadinhos e beber à vontade. Quem sabe eu tenha um tempinho de cruzar com ele, no decorrer dessa festa? É assim que funciona? Não!? Ora, dois pesos, a mesma medida, não?
Senhores aniversariantes, se for uma gafe, estou anunciando, de antemão, que a cometerei. Desobediência etiquetária. Meu presente, só em mãos. Com direito a abraço, cheirinho no cangote ou, se de poucas intimidades, aperto forte de mão e olho no olho. Hoje é SEU aniversário, e não aniversário do baú ou do latão. Ou da recepcionista, de caneta em punho! Seu presente está aqui. Comprei com o mesmo carinho como presentearia a mim. Se você não puder aparecer por alguns segundos para recebê-lo e abri-lo, não há problemas, levo-o de volta. Ficará muito bem em mim.
Xiii! Será que esse elefante de papelão com tromba dourada ficará bem em minha sala?
Certa feita (expressão pomposa para o contexto que se segue…), um amigo paulista perguntou-me: trem e treco são sinônimos? Ora, há coisas que não se perguntam a um mineiro de coração, carioca de nascimento, sem ouvir divagações que oscilam entre o pão-de-queijo e o peixinho da beira-de-praia. Não resisti à tentação! E, sem pretensões de rima, lá vai a falação…
Trem é uma coisa mais geral, abrangente, diz respeito a coisas grandes e pequenas.
Treco tende ao micro. Não ao microcomputador, mas ao microcosmos. Um trem guarda um monte de trecos dentro dele, mas nunca vi ninguém dizer que havia um trem dentro do treco.
Treco está na mão, a gente desmonta - e normalmente estraga, quebra. Aliás, tudo que já vem quebrado, não funciona, não liga e você tem que pegar e fuçar, é treco.
Treco costuma dar choque, perde-se com facilidade em gavetas e pilhas de quinquilharias - aliás, quinquilharia é o nome mais erudito de treco. Dispensável dizer que jamais chamaríamos um trem de quinquilharia.
Uma indisposição passageira é um treco. Se alguém disser a você: “Acho que vou ter um treco”, prepare-se para acolhê-lo nos braços ou, pelo menos, diminua o ritmo da caminhada. Mas se alguém disser que outro alguém teve um trem, desconfie que a coisa é séria e envolve juntas médicas.
Treco pode se referir, também, a um presságio. Ninguém jamais diria que “um trem está me dizendo que isso não vai dar certo”, mas você ouvirá, com certeza: “Não sei por que, mas um treco me diz que essa não é a melhor opção”.
Uma verruguinha atrás da orelha é um treco. Claro que pode ser uma boa e bela desculpa para pedir a alguém que olhe o trequinho atrás da orelha e a noite virar um trem bão de primeiríssima qualidade. Em tempo: trequinho, palavra nada erudita, que nem consta no dicionário, é mais que diminutivo de treco. Já que treco refere-se a pequeno, trequinho é quase microscópico. É aquele parafusinho pequenininho do treco que desmontou em sua mão. Mas, cuidado, nunca ache que pode ir tocando ou batendo no trequinho do treco. Grandes problemas sempre começam no trequinho do treco, que tende a virar um trem.
Treco é parente do troço. Por favor, não confundam. Digam troço, com o “o” bem aberto. O outro vocábulo, fechado, circunflexo quase, é primo muito distante, coisa feia e mal-cheirosa, que nem frequenta os mesmos ambientes de treco ou dos trequinhos. Um trem feio, vocês me entendem, não!? Nem merecia ter aparecido nesta crônica!
Trem, pelo caráter maior, refere-se ao belo, ao bem-estar. Pode ser descrição de paisagem… “Eta, trem lindo”… Pode ser resumo de sensações que não se revelam à luz da racionalidade… “Sinto um trem tão bom… Não consigo explicar…”
Trem, por ser multigenérico, multi-abrangente, multidisciplinar, multifuncional, pode se referir também a pessoas. Dizemos assim: “Ô, trem, arreda pra cá!”. E todo mundo entenderá que você quis dizer: “Ô, Fulano, chega mais!”. Aliás, arredar também é coisa bem mineira, mas isso é papo para outras divagações. É quase hora do almoço. Preciso comer um treco, senão terei um trem! Ou vice-versa, que já nem sei mais!
Certa vez, uns amigos, que “não acredito que você nunca pescou”, me levaram para a coisa.
Instruções iniciais: não pode conversar. Mas como vou para um programa onde não posso fazer a principal e melhor coisa que sei fazer na vida? Respirar, pode? Podia, mas devagar e sem fazer barulho.
Lá fui eu. Vontade de gritar, já que não podia falar. E, como não podia me mexer, pra não espantar os peixes (”que falta de graça, esse mundo dos peixes, sem movimento”, eu dizia, entre uma gargalhada solitária e outra…), fiquei sem saber onde enfiava as mãos, os pés, as orelhas, o bedelho. E, como não sabia onde enfiava nada, fiquei sem saber onde enfiava o monte de coisas que me deram incumbência. E, apatetado com esse universo novo, deixei cair uma lata, um treco velho, enferrujado e com cara de podre que configurou-se como o meu maior crime, dali pra diante. Ora, uma lata velha, cheia de terra preta? “Minhocas, Ney Mourão! Minhocas”, gritaram em uníssono! Mas por que estão gritando? Não era proibido fazer barulho, caramba?!
“Tudo bem, você PODE continuar entre nós, desde que tenha cuidado”. Mas, gente, como “POSSO”? Eu nem queria vir! Ai, se meus botões falassem…
E o frio? Quer uma cachaça pra esquentar? Mas Jesus! Se eu tomar uma cachaça, vocês vão ver. Aí, sim, o tempo é que vai ficar quente por aqui… A última vez que tomei cachaça belisquei pelo menos umas dez nádegas numa balada noturna. E isso numa cidadezinha do interior, onde nem nádegas o povo tem direito, que a religião não permite.
“Come um pedaço de queijo, mas não deixa cair na água, porque você tira o interesse do peixe pela isca”. Ah, mas tem isso? Não é possível! Peixe com livre arbítrio! Peixe dado a escolher no cardápio! E quem disse que eu gosto de queijo? Principalmente esse, que veio misturado com a lata nojenta e cheia de terra preta. (Eu JURO pelos céus, que não vi minhoca ali dentro. ‘Tava tudo enrustida. Inventaram que tinha minhoca, pra me deixar com sentimento de culpa. Aliás, tô começando a achar que tudo isso é um complô contra mim. É isso. Logo, vão aparecer os idiotas da Câmera Escondida e eu vou ter que fingir que ‘tô gostando. E esse frio, meu Pai? Isso não pode ser normal! ‘Tô achando que oitenta por cento é fundo nervoso! Nossa! Podia tanto ter um shopping aqui perto!)
Tudo bem. O primeiro peixe. Não meu. De um dos amigos daqueles “não acredito que você nunca pescou; não sabe o que está perdendo…”. E meu primeiro escândalo. Quem disse que o peixe não sangra? E aquelas coisas vermelho-escuro saindo da goela dele? É cenográfico? Foi o Hans Donner que criou? E ele se debatendo? É faniquito? Piti puro? Frescura, aposto! Não ‘tá doendo, é que peixe é assim mesmo; adora dar escândalo! Está se debatendo é porque quer aparecer pras câmeras escondidas e roubar a minha cena.
Eu juro que ouvi ele gritar. Sinto muito, mas eu não fico mais aqui, vendo essa “barbárie”. Não quero compartilhar esse circo de horrores. “Mas, Ney Mourão, é apenas UM peixe”. Ah, é? Vocês querem que eu conte a história do homem que salvava estrelas do mar na beira da praia? “Nãããoooo!” Ué! Por que será que não queriam? Uma história tão adequada para a ocasião! Se eu salvasse aquele UM estaria fazendo a minha parte, não estava?
E quer saber? Eu não vou comer isso, depois que vi ele olhando pra mim e chorando. E quer saber? Não páro nunca mais de chorar, pronto. Quero ver se vocês pescam mais alguma coisa, depois desse chororô que eu vou aprontar.
Quase fui linchado - ou afogado, o que era super fácil, já que afogo em caixa d’água de 250 litros. Mas meu maior troféu: salvei TODOS os peixes. Pelo menos os daquela noite. Pois resolveram que o melhor era mesmo ir embora, 90 quilômetros de estrada de volta. Todos calados, com olhos de peixe morto! Ai, desculpem, não segurei a metáfora!
E eu? Fui pra casa, comer salada, que o olho do peixe me olhando ‘tava atravessado na consciência. Quando me lembrava, ainda me afogava em lágrimas. De gente, mesmo! Não de crocodilo!!!
Era assim:
tão pouco bela
quanto um pavão barulhento.
Sem prumo, sem guia
tinha culotes e estrias
e um certo vazio
de dentes a enfeitar o sorriso.
Era obesa e flácida
tinha cicatrizes no semblante
cabelos que não aprenderam
a dança suave do vento.
Todas as noites
chorava de medo
do escuro e do encanto.
Orelhas grandes
olhar carpideiro, com ameixas boiantes.
teve ferida no ventre,
quando pequena.
Não se importava:
coçava o nariz
- às vezes, babava.
Era assim:
tão pouco bela
tão pouco tudo
que fazia dó existir.
Mas nos amávamos
a cada quarto
de lua crescente!
(Ney Mourão; Do livro “Notas Dispersas pelas Paredes” - Editora Autêntica)
Por ora
quero que minha poesia
- a cem!
derrube o seu muro.
Liberdade!
Só vale
a prenha palavra
que deite
tijolos ao chão!
(Do livro “Notas Dispersas pelas Paredes“; Ney Mourão; Editora Autêntica)
Às vezes, em meus cursos de Produção Textual, meus alunos perguntam como se faz para gostar de escrever. Sempre acho a pergunta esquisita. Soa-me parecida com: “Como se faz para gostar de comer pudim de leite condensado?”. Ou ambrosia, daquelas bem feitas, que escorrem pela língua, feito néctar. Como se faz para gostar de paisagem verde ao cair da tarde, na companhia de quem se gosta? Como se faz para gostar de cafuné na parte interna da coxa? Como se faz para gostar de criança dando gargalhada no seu colo, depois que chorou nos braços de todo mundo? Como se faz para gostar de chuveiro bem quentinho, no banheiro da gente, sabendo que os lençóis da cama foram trocados e que você, amanhã, só vai acordar depois que todos tiverem comido o pãozinho das dez? Como se faz para gostar de beber água na bica, depois de horas de caminhada? Como se faz para gostar de Neosaldina, quando a cabeça dói há horas? Como se faz para gostar de filmes de suspense, só pra agarrar aquela mão carnuda da poltrona ao lado, que você quer mais do que agarrar? Como se faz para gostar de brincar de pêra uva maçã salada mista olha quem ta aqui pra te encher a vista? Como se faz para gostar de viola bem tocada, em noite de gorda lua? Como se faz pra gostar de moqueca de peixe, com muito coentro, na beira do rio? Como se faz para gostar de ficar horas a fio, sentado na cadeirinha da tenda da baiana, comendo acarajé e vendo a moça mexer o tacho, cheio de massa de bolinhos? Como se faz para gostar de sapatear de chinelinho de dedo, na enxurrada, na saída da escola, com a turma toda, gritando e molhando o mundo em redor? Como se faz para gostar de uma boa conversa, daquelas que adentram madrugadas, sem hora pra acabar, sem saber como começou? Como se faz, Santo Deus, para gostar de uma sinfonia de Bach, no cravo, numa igreja antiga, com montanhas avistadas através dos vitrais? Como se faz para gostar de sopa quente de legumes e costelinha, em dia bem frio, com os pingos de chuva retumbando nas calhas? Como se faz para gostar de desenho animado e pipoca, guaraná geladinho, três da tarde, telefone desligado e toda a cidade procurando por você? Como se faz para gostar de cheiro de morangos frescos, molhados de orvalho? Como se faz para gostar de colinho, de beijinho na orelha? Como se faz para gostar de andar de carrinho tromba-tromba numa pista repleta de amigos? Como se faz para gostar de pega-pega, pique-esconde, rouba-bandeira, amarelinha? Como se faz para gostar de ver, rever, ver, rever, ver, rever as fotos do passeio e da companhia – ai, que saudade! Como se faz para gostar de gostar de tudo isso?
Não, meus queridos alunos! Eu não sei como se faz para gostar de escrever! Aliás… Podem me explicar melhor a pergunta?
Por mais que insistam em me fazer acreditar no contrário, já aprendi algumas coisas:
1. Informação não é conhecimento! Mas a linha tênue entre uma coisa e outra só se pode divisar com bom senso e um mínimo de inteligência.
2. Ignorância não é problema. Sou ignorante em ídiche, por exemplo! Sou ignorante em Cálculo dos Axiomas Complexos. Tão ignorante que talvez isso nem exista! Sou ignorante em jogar uma argamassa na parede e ela ficar lá, quietinha, sem despencar feito uma polenta mole. Sou ignorante em nado borboleta. Aliás, em matéria de nadar, não nado nada! Sou, portanto, totalmente ignorante, nessa arte. Tão ignorante, que nem sei se é uma arte. Ignorância não é problema! Burrice, sim! E me irrita! Talvez eu seja ignorante, na arte de ter paciência com a burrice. Mas nunca tive paciência em pensar muito nisso!
3. Ação não quer dizer movimento. Estou quase letárgico, agora. Mas minha mente sempre anda a dez milhões. E minhas mãos, pobrezinhas, nunca conseguem acompanhar, com movimentos, a turbulência de ações de meus neurônios. Não me quieto nem pra dormir. Quisera! Mas é quimera! Eu, dormindo, sou um insone, pensando no dia de amanhã - em outra dimensão, é claro! Como serão as outras dimensões? Não! Preciso parar! Penso isso, sempre. E, quando vejo, já fui. E tenho que sair correndo atrás do cara! Que agiu mais rápido que o próprio movimento!
Vou ali, digerir mais alguns pensamentos e volto já. Se conseguir me alcançar no meio do caminho. Em tempo: aprendi também que postura não é ação! Mas isso é papo para outro post!
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