Mais algumas divagações sobre meu tema predileto: a liderança…

liderUma verdadeira equipe não é um aglomerado de pessoas reunidas pelo medo, necessidade ou anseio por vitórias sobre outros. Uma equipe é mais que mera reunião. É uma junção de pessoas fortalecidas por laços orgânicos. O que define uma equipe é a causa comum que consegue acolher visões diferenciadas. O que define uma equipe é a capacidade de somar diferenças. O que define uma equipe de sucesso é a capacidade conjugada de abdicar de interesses pessoais em favor de uma soma de competências. E tudo isto, não necessariamente para grandes obras, grandes feitos ou atos revolucionários. É no cotidiano, nas pequenas coisas que se constrói a teia, que se solidificam os elos, que se acomodam as pedras da estrutura.

 

Toda equipe precisa de um ou mais líderes. Erra quem acha que eles são os mais importantes da cadeia formadora da equipe. Eles são os que validam a importância de todos. São melhores líderes os que conseguem captar, dentre a banalidade habitual do cotidiano, os valores e relevâncias de cada pessoa e, descobertos esses valores, fazer com que eles aflorem, num belo manancial de força e mobilização. Desconfiem dos líderes que sempre dão ordens. Os melhores mobilizam talentos e vontades. O verdadeiro líder raramente precisa mandar, pois seu esforço por fazer nascer na equipe o desejo duma colaboração voluntária é sempre coroado.

 

Eis o desafio: dizer cada vez menos o EU imperativo e assumir o NÓS colaborativo. Esta é uma mentalidade transformadora. Esta é uma postura capaz de construir impérios solidificados na ética, na verdade, no bem e no belo. Grandes líderes humanitários ensinaram, ao longo da História humana a construção alicerçada no acolhimento de diferenças, na soma dos valores individuais – sem contradizer o anseio pelo fortalecimento do tecido coletivo. Assim, conseguiram transcender-se e transcender. Assim, realmente foram exemplo a seguir. Conseguiam construir EQUIPES, TIMES vencedores, cujas histórias ficaram e ficarão na História, como lembranças suaves a embalar os corações e almas. Todos os demais foram apenas chefes, perdidos em suas ilhas de ilusão e reconhecimento efêmero.

 

O líder é o que sabe canalizar sentidos em prol do outro. Saber abrir os braços para o toque. Saber usar as pernas para caminhar ao encontro. Saber distinguir os aromas dos receios e o sabor das conquistas. E, acima de tudo, saber OUVIR! Ouvir o outro, saber de suas necessidades, saber de suas falas, perceber o que es esconde nas entrelinhas do que é dito e no silêncio do não-dito.

Investir na força da liderança verdadeira é tarefa que toda organização que almeja o sucesso deve ter em suas ações. Desafios e dificuldades se impõem, é claro. É fácil para um líder se deixar embalar pela falsa sedução do comando. Mas cabe aos líderes o papel diferenciado de, pelo menos, TENTAR um mundo melhor!

14 mar 2009

Ainda

Em: Ruminando literatices

poesiaEu ainda quero lambuzar as frias paredes
com o calor de versos.
Eu ainda teimo em sonhar rimado
sincopado e triste às vezes
débil e fraco em certezas em outras.

Eu caminho entre estrofes,

trôpego, feito quem bebeu estrelas pela noite.

Eu trafego entre o rio manso

e o mar devorador

à procura de restos de desejos

e os transformo em palavras.

Algumas soam incompreensíveis.


Outras aceleram pulsações.

Eu imagino sonetos

e por vezes os perco, aqui, ali,

no bolso da calça,

na trilha de pedras

na correria do ônibus que acabou de passar.

Hoje eu ainda quero construir rimas

desejo caduco, esse da pena

- dá pena, até!

Eu ainda teimo

e tremo, só de pensar que um dia venha a desistir.

Eu insisto, persisto e respiro.

Golfadas, de um gole.

Babo reflexos da lua.

Eu não bebo quase nada,

mas tenho sempre esta ressaca na alma.

Eu ainda quero lambuzar esta vida

de doce poesia 

de doce…

Poesia! 

(Minha homenagem ao Dia Nacional da Poesia e do Poeta - 14 de março)

 

1 mar 2009

Em: Gestos e indigestões

otoridadi1

Em verdade, em verdade vos digo:
Diga-me como mandas,
e eu vos direi quem sois!

28 fev 2009

A crise e as faces ocultas da fome

Em: Gestos e indigestões

fomeTenho recebido, nos últimos dias, em diversos ambientes pela web, um texto atribuído a um famoso publicitário, criticando a postura dos governos mundiais que nunca se mobilizaram para erradicar a fome do planeta. Segundo o tal texto, já se afirmou que cerca de 40 bilhões de dólares seriam necessários para acabar com a fome e a miséria da Terra. Não haveria mais nenhum menininho magro e faminto, a ser fotografado em preto e branco pelos fotógrafos pelo mundo, a comover os corações mais sensíveis. Tal texto traz a ferrenha crítica à ajuda dos governos às instituições financeiras - que, hoje, quando escrevo, já estaria rondando a cifra de mais de 2 TRILHÕES de dólares (mais de 700 bilhões nos EUA; um e meio trilhão na Europa). Ou seja: toda esta dinheirama, “investida nos pobres”,  segundo o tal texto, teria salvado o mundo! 

Infelizmente, o “buraco é mais em baixo” nessa questão. Na verdade, os Governos estão, sim, salvando os bancos. Mas dizer que estão SÓ salvando os bancos é uma visão reducionista, equivocada e, no mínimo ignorante. Eles estão salvando os bancos que financiam empréstimos a empresas que compram produtos de outras empresas que fabricam produtos para outras empresas que encomendam serviços a outros fornecedores e que, nesta roda de quês e quês, empregam o trabalhador que trabalha no banco e o trabalhador que trabalha na empresa que fabrica o produto fabricado pela outra empresa que compra na mão de outra empresa e que emprega mais tantos funcionários que alimentam famílias que têm filhos que estudam em escolas onde trabalham professores que compram produtos em lojas que encomendam seus produtos a empresas…

Com todos esses funcionários na rua, sem dinheiro, vários deles deixam de comprar aquele primeiro produto, daquela outra empresa, que prefere, já que está vendendo menos, não abrir mão de seus lucros exagerados e, então, demite mais funcionários ou faz um acordo espúrio com eles para lhes pagar menos. Ou passa a explorá-los mais, para retirar deles a mais-valia, que cada vez vale de forma desigual para as partes envolvidas, o que gera gente triste, doente e deprimida pelas ruas. Ou, pior, desempregada! E, gente desempregada nas ruas, gera ainda outros problemas, como violência pública, instabilidade social, aumentos das enfermidades nos hospitais.

Pronto! Está formada a roda, cujo ator principal é bem mais complexo do que a criancinha que mendiga pelo pedacinho de pão ou pelo esquelético menino observado pelo urubu, na famosa foto em preto e branco. 

Sim! Os Governos nunca mobilizaram esforços para acabar com a fome do garoto que disputa o naco de pão com os cães no lixão porque esse garoto já faz parte daquela parte lá da cadeia que não compra mesmo das empresas que mantêm essa roda infernal. Se ele morrer de fome, será apenas um a menos. E, se com ele morrer toda a sua família de desempregados que não compram, já não pagam seus hospitais e, ainda por cima, são ameaça à estabilidade social, porque podem roubar, assaltar ou questionar governos estruturados, será um grande favor que farão à estrutura como um todo. 

Infelizmente, é assim que a coisa funciona. Certos os Governos? De certa forma, sim, porque a estrutura é que está, em sua concepção de humanidade, errada. E é função dos governos manter a roda de nossa sociedade estável, girando, ainda que tenhamos que crescer nossas cercas elétricas para ver com tranquilidade dentro de casa, pela TV, as notícias sobre a crise. Talvez a crise faça com que todos repensemos nossa forma de empregar, de comprar, de governar. Ou não…

20 fev 2009

A Educação anda trôpega

Em: Gestos e indigestões

 Duas notícias no mínimo bizarras nos jornais, no início do ano letivo de 2009, em São Paulo. Em pleno século XXI, estudantes da Faculdade Anhanguera de Veterinária, na cidade de Leme, interior de São Paulo, promovem trote em que obrigam calouros a se esfregarem em excrementos de animais, andarem acorrentados, submeterem-se à ingestão forçada de bebida alcoólica e, ao final de tudo, ainda expuseram calouros à violência física, o que acabou levando um dos estudantes à internação hospitalar, com ferimentos graves. Os futuros profissionais, que lidarão com animais, demonstraram o total despreparo para lidar com pessoas, e para serem genuinamente profissionais. Tal conduta deveria vir impressa em seus futuros crachás funcionais, para que não corrêssemos o risco de levarmos nosso pobre burros, jegues, antas e cobras de estimação ao contato com esses exemplares humanos. 

tropego1No entanto, a notícia mais bizarra não foi essa. Mas outra, que julgo a institucionalização da bizarrice. A PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica) distribuiu doces, balas, pipoca, barras de cereal e água a seus alunos para minimizar os efeitos da bebedeira comemorativa do primeiro dia do ano letivo. Segundo o pró-reitor de cultura (isso mesmo: CULTURA!!!) e relações comunitárias (leram correto: RELAÇÕES COMUNITÁRIAS!!!), Hélio Deliberador, de quem partiu a iniciativa, a ação não incentiva o consumo de álcool. Para a anta, ops, desculpem, para a autoridade pedagógica, a intenção é justamente reeducar sobre o consumo de álcool. Não sei se antes da ingestão de alguma dose de qualquer coisa, ele declarou ao jornal: “Quando colocamos a perspectiva do alimento junto ao álcool, é uma reeducação para não ingerir de estômago vazio, que, sabidamente, faz com que o grau de intoxicação aconteça, quer pela desidratação, quer pela hipoglicemia”, afirma o pró-reitor, que é professor de psicologia. Segundo a assessoria da PUC, seis alunos passaram mal por excesso de álcool. Por precaução, dois deles foram encaminhados a hospitais, em estado consciente, e acabaram liberados em seguida.

A universidade distribuiu telefones de táxis para evitar que as pessoas que beberam dirigissem. 

Outra educadora, de outra Instituição paulistana, resolveu perder a oportunidade de manter-se calada e também se pronunciou. Para a professora da Faculdade de Educação (SIM! EDUCAÇÃO) da USP, Stela Piconez, é difícil julgar a PUC.  De acordo com a educadora, a ingestão de álcool em excesso por jovens é uma questão social, que extrapola os limites da universidade. Ainda assim, diz, cabem medidas para amenizar o problema. 

Acho no mínimo conivente e estranha a postura da Universidade. Universidade é o locus de pesquisa-ensino-extensão. Ou, pelo menos, deveria ser! É o ambiente de construção do conhecimento, de delineamento de um futuro profissional ou pesquisador ou acadêmico. Ou, pelo menos, deveria ser! É o espaço de fomento a posturas privilegiadas, que contribuam para a melhoria da sociedade em que está inserida, não se isolando dela, mas interagindo com ela e buscando fornecer a ela o resultado dos talentos, competências e habilidades dos seus integrantes. Ou, pelo menos, deveria ser! 

Alegar que a bebedeira é uma “questão social, que extrapola os limites da Instituição”, para justificar uma pseudo postura de redução de danos, irresponsável e pueril – literalmente pueril, materializada em docinhos e balinhas -,  é o mesmo que dizer que, então, a instituição universitária passará a aceitar outras distorções sociais, como o tráfico de drogas, porte ilegal de armas, exploração sexual de adolescentes, distribuindo quaisquer tipo de atenuantes para o “conforto” de quem exerce uma destas práticas. 

Francamente, é decepcionante, assistir a uma Universidade prestar-se ao papel de cúmplice de uma postura que nada tem de “educativo”. Estranho não termos lido ou sabido de nenhuma manifestação, sobre o assunto, por parte da comunidade acadêmica - docentes e alunos. Ou andam achando que isto é normal?

Eu não me orgulharia de fazer parte de uma Universidade assim. Eu não me orgulho em saber que tenho, em meu país,  universitários que obrigam colegas a se esfregarem na lama e nem em saber que há dirigentes pedagógicos que acreditam que educar para mudar essa mentalidade é fornecer balinhas como redutora de danos.

Lastimável!

lanche-de-velorioDuas partidas me fascinaram, em 2008. Uma delas, já comentada à exaustão, a da comediante Dercy Gonçalves. Em meio às polêmicas sobre sua vida e trajetória artística – sobre as quais não quero me deter – momentos diferentes daquilo que nossa cultura habitualmente chama de “velar um corpo”. Uma bateria de escola de samba, marcando um ritmo alegre e cheio de energia; uma solenidade católica, em uma pequena cidade interiorana, sendo interrompida para dar lugar a um velório de uma mulher cuja marca registrada era o deboche aos ícones do tradicionalismo; um bloco carnavalesco entoando marchinhas; pessoas dizendo palavrões, “homenageando” a passagem do cortejo.

Alguns dias depois, em um canal de TV por assinatura, assisti a um documentário sobre o funeral de uma senhora que foi morta por um tiro, dado por um policial, na Guiana. Ela, membro da minoria negra, recebeu as homenagens de praxe na tradição da Guiana: festa, música alegre, dança, roupas coloridas, instrumentos musicais sonoros e um cortejo que lembra o nosso Carnaval. Bebida para regar o corpo, muita felicidade, para alegrar a alma. A explicação: liberto da carne, o espírito da senhora agora poderá encontrar-se com a essência divina. Liberta de todo sofrimento, não mais sofrerá as dores terrenas. E, sem nenhum traço de egoísmo, seus amigos e familiares comemoram. Seu filho sorri e recebe cumprimentos dos seus amigos. Toda lágrima é afastada por sorrisos, gargalhadas até. Não há apego. Lembram-se dela pelos momentos bons, lamentam seus infortúnios, mas têm a certeza de que ela está em melhores condições do que eles, viventes desse plano de aprendizado pela dor.

Confesso que invejei os dois funerais. Quisera eu também poder saber que, quando partir, meus amigos e familiares não experimentarão uma dor pungente, uma tristeza profunda. Ah, quem dera uma festa como aquela da Guiana. Quem dera saber que minha partida para outros planos, caso existam, será responsável pela promoção de um Carnaval. Ah, que delícia, em vez de lágrimas, pranto, gemidos, ter em minha partida derradeira os acordes vibrantes de uma bateria de escola de samba. Invadir ruas com meus acompanhantes e suas roupas vistosas, enquanto a platéia, estarrecida, vê passar a alegria de quem viveu cada dia com a certeza de uma fé inabalável de que vamos, de fato, alcançar outros planos melhores.

Na Guiana, as pessoas brindam, com convicção. Creio que isso, sim, é representação sublime de uma fé que para a nossa cultura é difícil de compreender. Mas não tentem compreender, amigos. Celebrem minha ida, com o vigor de quem desfila na avenida, entre fantasias, alegorias e adereços. Não sabemos o que há do outro lado, mas com certeza lamentarei apenas por vocês não estarem desfrutando comigo de um lugar novo e, espero, bom de se estar. Na despedida de Dercy, o refrão do samba dizia: Bravo, Bravíssimo! Imaginem chegar ao outro lado com esse coro, celebrando minha façanha de ter vivido em plenitude. Não sei da vida de Dercy. Não me interessa se foi boa ou vilã. Que esta discussão fique para quem não prestou atenção à festa e à celebração do futuro e quer apegar-se ao passado. Mas um coro desses é de dar inveja! Bravo, bravíssimo! Normalmente platéias dizem isso de pé, entre lágrimas não de tristeza, mas de euforia. É um momento em que os céus se abrem e os homens entram em sintonia com o Mágico, o Divino!

Nunca gostei de velórios e enterros. Nunca soube o que dizer ou fazer. Sempre senti, nos familiares, um hálito ruim, um cheiro exalante e estranho, que me enjoa e me incomoda. Não quero isso em minha partida. Quero um cortejo com música alegre e coros festivos. Nada de cheiro de flores murchas. Quero cheiro de pipoca novinha estalando, de amendoim praliné e coquinho com canela. Quero baianas oferecendo quitutes. Uma orgia de sabores, cheiros e sons de alegria!

Quero que venham à minha despedida os negros da Guiana, com suas vestes coloridas, seus lenços acenando, suas gargalhadas. Quero uma escola de samba e passistas e velhinhos sorridentes tocando marchinhas. Quero palhaços, circo e poetas, entoando canções pelos cotovelos. Quero uma bagunça gostosa, celebrando a partida para a certeza da paz e não para a incerteza e a eternidade do luto.

Estou impregnado de inveja. Doente de inveja. Talvez até morra, de tanta inveja. E, por favor, amigos, se eu morrer esta noite, de tanta inveja, respeitem meu último desejo e, amanhã, vistam-se para a melhor de todas as festas, enfeitem minha casa, encham a rua de alegria e abram alas, que eu estou a caminho de um certo, bom e belo lugar onde, um dia, com certeza, esperarei por vocês.

O filósofo, físico e matemático francês René Descartes, se hoje vivesse, talvez tivesse dito sua máxima mais célebre assim: “Teclo; logo existo”. Ainda assim, com a vertiginosa velocidade do avanço das tecnologias, tal afirmação correria o risco de, dentro de alguns anos, com o já previsível desaparecimento dos teclados em nossas máquinas, também tornar-se obsoleta.

enterÉ fato conhecido: nas últimas décadas, experimentou-se, no campo tecnológico, um acúmulo de descobertas e novidades equivalente ao que se conseguiu em séculos de anterior existência humana. A chamada Era do Conhecimento trouxe, para o processo de ensino/aprendizagem, novas perguntas, novos questionamentos e a necessidade de respostas tão ágeis quanto o contexto em que estão inseridas. A TV de nossa sala mostra, em tempo real (e nunca se disse tanto a expressão “tempo real” como agora), a imagem de dois aviões invadindo duas torres, em um lugar a milhares de quilômetros de distância. De imediato, nossos filhos querem saber por que, onde ficam os prédios, quem é o senhor de barba longa a quem é atribuído o ataque. Num lampejo, todo o mundo está plugado, em rede, com históricos disponíveis, localizações geográficas, simulações de vôos, gráficos, reflexões ético-antropológicas. Conecto-me; logo existo! Eis a fórmula de um tempo novo!

Um personagem deste cenário em turbilhão vive ansiedades maiores. Um personagem habituado à constância, à previsibilidade, às fórmulas prontas, aos livros onde o saber estava consolidado, a um tempo medido mais pela cronologia do que pela efervescência. Um personagem de um mundo onde aviões não atravessavam torres, com transmissão ao vivo em telas instaladas em suas salas.

O professor é um personagem cujo papel mais definidor era a capacidade de oferecer respostas. No atual cenário, multiplicam-se as perguntas e a relação ensino-aprendizagem torna-se efetiva teia de construção de saberes, onde também o docente é um vivenciador das mudanças. Novos saberes, novos sabores precisam ser descobertos.

aprendendo”As tecnologias conectam as pessoas, que se conectam entre si”, disse Bill Gates. As novas tecnologias digitais têm possibilitado uma dinâmica nova, oportunizando a disponibilização de informação em rede e uma nova postura dos agentes vivos que dela se utilizam. Alguns começam a tornar-se mais ativos e interativos. Ou, pelo menos, estão sendo estimulados a desenvolverem tal perfil - por exigência do mercado ou por incentivo dos seus parceiros, tanto instrutores/facilitadores quanto aprendizes também.

Na Educação a Distância, um leque imenso de possibilidades se abre. Conexões mais ágeis permitem a evolução do aspecto gráfico dos ambientes, a criação de novos recursos de interação entre aprendizes, a exploração de novas linguagens. Mais que isso, oportuniza a diminuição do contingente de excluídos no acesso à informação.

É certo que a rapidez das mudanças também assusta. Nosso personagem, muitas vezes, vê-se às voltas com paradigmas novos, que nem sempre se encaixam com o tradicional. A própria legislação em Educação, em nosso país, tem passado por críticas constantes, por não conseguir acompanhar a velocidade com que emergem novos cenários. Auto-aprendizado, formação continuada autônoma e “home schooling”, por exemplo, ainda são bichos-papões incompreensíveis, que muitos evitam até tocar no assunto. A relação docência-aprendiz vê-se tomada pela necessidade de aprimoramento constante nas duas pontas. Wikis, ambientes virtuais, novas plataformas, redes inovadoras de interação – tudo é rápido e tem que ser aprendido com agilidade, sob o risco da obsolescência.

Sem dúvida, não há volta. Como afirma LÉVY (2006), cada vez mais, Educação a Distância e o formato presencial mais se assemelharão e se apropriarão do melhor dos dois mundos. Não há como se desfazer das tecnologias, mas sim há que se utilizar delas com bom senso, como ferramentas, como suporte ao anseio maior de todo processo educacional, seja a distância ou presencial: tornar as pessoas melhores!

(Ney Mourão é jornalista, tutor em Educação a Distância, e vive a boa ansiedade dos dois mundos - é educador e eterno aprendiz!)

No momento de redigir um texto, uma dificuldade que é bastante comum: como começar? Como colocar no papel as idéias, dando-lhes um ordenamento lógico e coerente?

mao-na-massaA resposta pode parecer óbvia, mas é uma provocação proposital. Comecem pelo começo! Calma! Antes que tenham vontade de esganar-me, vamos a uma pequena metáfora. Como devemos começar a construção de uma casa? Se você disse “comprando os materiais”, errou! Uma casa começa a ser construída pelo terreno, pelo revirar da terra, pelo mato sendo arrancado, pelo trator, pela enxada. Imagem ainda distante da casa verdadeira, concreta e bem acabada. Antes mesmo, é necessário que haja um projeto, cujo início são rabiscos, esboços desmanchados e reescritos de maneira sôfrega sobre um papel fino e transparente.

Sabem qual o maior erro de quem vai escrever um texto? Imaginar que ele deve “nascer pronto”! Com princípio, desenvolvimento e conclusão; parágrafos ordenados, conforme mandam os manuais! Senhores e senhoras, trago boas-novas, como disse o poeta! Comecem RABISCANDO! Isso mesmo! Sua futura casa, com azulejos coloniais e mármore branco, deverá nascer dos escombros do seu inconsciente para vir à tona, magnífica e bela. Peguem a folha de papel e pensem nela como algo que, primeiro, deve ser rabiscado, com idéias soltas, inicialmente desconexas. É o seu interior que fala, pulsa, latejando de vontade de expressão.

A tribo da Matemática rabisca continhas nos cantos do papel… Os físicos e químicos têm pranchetas onde anotam possíveis resultados, antes da comprovação. Os químicos, antes da mistura final, ensaiam, escrevem, anotam. As costureiras, antes do molde definitivo do belo vestido que enfeitará os salões, anotam as medidas em pequenos papeizinhos. Por que diachos ensinam aos pobres redatores que seu texto tem que nascer pronto e acabado?

Se o tema a ser desenvolvido é Ecologia e a primeira imagem que lhe vem à mente são árvores, riachos e peixes e você quer fazer desenhos, permita-se! Deixe que seu artista interior fale…

Depois de alguns minutos rabiscando, desenhando, deixando brotar palavras soltas, perceberá que as frases começam a surgir e que o emaranhado de coisas sobre o papel vai forçar o nascimento do sentido. Perceberá que determinadas palavras são boas e lhe servem, outras podem ser descartadas.

Ficará mais fácil organizar o seu pensamento e as idéias, ordenando e colocando juntas aquelas que têm afinidade. Eis a sua coerência surgindo. Eis a clareza sendo construída. Eis a sua casa sendo edificada, da maneira como uma casa deve ser erguida, do chão ao teto, nunca ao contrário.

Aos que têm dificuldade em começar, faço o convite: tentem! Você lhe proporcionará uma grata surpresa!

ney- Ney Mourão é jornalista, poeta, redator publicitário, especialista em Educação a Distância. Webmaster do site Redação Criativa (www.redacaocriativa.com.br). Mesmo não sabendo desenhar, elabora desenhos mentais, no momento de iniciar um texto.

Recentemente, em um fórum de educadores na internet, deparei-me com duas indagações, em princípio colocadas de forma independentes:

· “Que benefícios reais educadores e educandos podem obter a partir da introdução das tecnologias de informação e comunicação?
· Que desafios e dificuldades surgem com a incorporação das tecnologias à prática educacional?”

terra-virtualNa verdade, as duas perguntas são complementares e devem ser respondidas sob um mesmo foco. A introdução das TICs no meio educacional traz em seu bojo desafios, contradições e perspectivas múltiplas, que tornam o trabalho dos profissionais que a ela se dedicam complexo e sério.

Em primeiro lugar, é inegável o aspecto fomentador do desenvolvimento de competências e habilidades – e isso, mirando-se tanto o universo do educando quanto o universo desse “novo professor”. Novas competências relacionais, cognitivas, produtivas e pessoais são demandadas, em cada nova situação tecnológica, como a administração comportamental em uma sala de chat, a moderação responsável e equilibrada de grupos, a motivação de equipes a distância, a organização e planejamento dos conteúdos de forma agradável, a resolução de conflitos inter-relacionais.

O “novo aluno” precisa aprender a otimizar seu tempo e a lidar com toda uma parafernália disponível de recursos, empregando-os de forma responsável e, ao mesmo tempo, dividindo, com o seu professor, novos jeitos e “sabores” no aprendizado. Já o “novo professor” tem à sua frente um universo inesgotável de possibilidades, que podem tornar a relação com os sujeitos e os objetos de aprendizagem muito mais eficazes e eficientes.

Alguns adjetivos poderiam definir, de forma bastante concisa, os novos aspectos desse aprendizado, traduzidos em benefícios quase imediatos:
- dinamismo (com a tecnologia, o acesso à informação, se bem orientado, pode ser muito mais ágil, rápido e eficiente);
- ludicidade (alguém duvida do prazer que os alunos têm, com suas descobertas nesse novo mundo tecnológico?),
- precisão (com determinação e orientação sistemática do foco, pelo educador, o ato de pesquisar pode ser bem mais correto),

É importante, no entanto, não nos deixarmos cativar por uma visão imediatista, imaginando que é um universo sem desafios a serem enfrentados. Há que se ter em mente uma visão conjuntural de um país imerso em desigualdades sociais, econômicas, culturais e até mesmo de vontades e posturas políticas. E os desafios são imensos.

Resistência! Talvez o primeiro e maior deles… A resistência ao novo. A resistência corporativista, que se agarra com unhas e dentes a uma realidade antiga, conformista e que assegura determinadas relações de poder, de comando e de relações sociais. Acompanhei de perto, por exemplo, o trabalho de implantação de TICs no interior de um determinado Estado brasileiro. Lá, em cidades onde até há bem pouco tempo a luz elétrica foi uma novidade, vi diretoras que ainda defendem a palmatória, para alunos que porventura surrupiem a bolinha do mouse. Vi – não foram poucas! – diretoras que receberam computadores novinhos em folha e deixaram que todo um laboratório de Informática caísse na obsolescência, por total falta de uso, com “medo” de que seus alunos estragassem as máquinas. Vi diretoras que levavam a chave dos laboratórios de Informática consigo, para casa, numa demonstração inequívoca de que o uso racional das tecnologias requer educação de base, competência gerencial e, acima de tudo, bom senso. Nessa trajetória, tenho acompanhado de perto professores que se amedrontam, crendo que a máquina irá substituí-los. Gosto sempre de dizer que o professor que um dia for substituído por um computador terá merecido a substituição!

Gestão competente dos recursos disponíveis é outro mega-desafio! E, aqui, cabe dizer que o termo “gestão” aplica-se não somente a diretores, mas a todos os atores sociais do processo educativo. É extremamente comum percebermos o uso de máquinas de última geração para aplicabilidades antigas. Computadores encarados como máquinas de escrever avançadinhas e modernas. Salas de informática de escolas utilizadas para aprender digitação e fazer desenhos no Paint Brush. Ou, ainda pior, conteúdos sendo digitalizados com a mesma feição e a mesma (IMPER)feição dos conteúdos impressos – mera transferência da ausência de qualidade, mera sub-utilização das potencialidades de uma ferramenta.

Creio que os desafios que ora enfrentamos são naturais. Não vivi os dias em que chegaram, pela primeira vez, os livros, às mãos do grande público. Mas imagino como deve ter sido sofrido e caótico o longo período de transição, até que o saber se disseminasse com a palavra impressa, saindo das cúpulas dos grandes mestres para a população, sedenta por conhecimento. Vivemos, creio, esse tempo novo da disseminação. Os “proprietários” desse saber estão aflitos, vendo-o escorrer por suas mãos. A grande massa, ansiosa por ele, está ávida, como quem corre ao pote de mel em meio à fome. Natural que assim aconteça.

(Ney Mourão)

Na Era da Informação, cada vez mais é importante que as pessoas sejam dotadas da competência para se expressar. Falar em público, manifestar a sua opinião, interagir com os demais membros da comunidade tem-se tornado, cada dia mais, uma exigência comum nas organizações que aprendem.

psiuQuando se fala em interação, no entanto, surge um fantasma, que costuma assombrar os castelos, tanto de profissionais, quanto de alunos como de educadores, principalmente quando se fala em Educação a Distância, ambientes colaborativos, fóruns de interação. Por que muitos atores sociais assumem o papel de personagens pouco falantes, quase nada escreventes ou aparentemente omissos, quando deveriam co-operar, com o diálogo, com os demais participantes, em um curso ou atividade de aperfeiçoamento? Por que muitos indivíduos com reconhecido talento, ao lidarem com um fórum de discussão, uma lista temática ou uma sala de aula virtual preferem tornar-se membros de uma obscura “turma do fundão”? Qual seria a causa do silêncio virtual?
Tenho algumas suposições. Longe de qualquer experimentação científica, elas são fruto da observação cuidadosa das pessoas, de suas relações, de seus modus vivend e modus operandi. Arrisco-me, aqui, a esboçar algumas dessas suspeitas.

1. Dificuldade de expressão - Principalmente porque manifestar-se exige correção na escrita, clareza, coerência, coesão. Como professor de Produção textual, sei como muitos alunos encaram isso como um verdadeiro pesadelo.

2. Ausência de motivação com o tema em questão - Não havendo a obrigatoriedade, e se o tema não desperta, de fato, interesse, não há motivo para a manifestação. Eu talvez jamais me manifestasse sobre o último jogo entre Cruzeiro e Atlético. Não gosto de futebol e não é um tema sobre o qual eu me moveria.

3. Desinformação sobre o assunto em pauta - No exemplo que acabei de citar, acima, se vocês começarem a discutir sobre as últimas aquisições do Cruzeiro ou do Atlético, ou seja lá de que raio de time que for, é bastante provável que eu não tecle uma vírgula. É claro que, se eu for obrigado a isso, amanhã terei que comprar um jornal, emergencialmente, e ler o caderno de Esportes. Mesmo assim, haverá que ser computado o tempo de silêncio, entre a minha busca, a minha pesquisa, a minha “digestão” (ou “indigestão”) do tema.

4. Postura agressiva perante a tutoria - Sim!!!! Alguém já ouviu dizer que o contrário do amor é a indiferença? Um tutor que gere sentimentos de não-empatia, de ausência de simpatia ou de antipatia, por motivos diversos, em um determinado aprendiz, pode gerar nele uma sensação de indiferença, de rancor que, por não poder se tornar manifesto, transforma-se em silêncio latente, consciente ou inconsciente. Nada muito diferente do campo presencial. Alunos extremamente calados podem estar buscando agredir o professor com seu silêncio. OU apenas se preservarem de uma relação interpessoal conflituosa. Calado, evito aborrecimentos, pode pensar o aprendiz. Bem-vindos ao campo freudiano!!!

5. Ausência de competência técnica para lidar com o ambiente - Em alguns casos, há aprendizes que vão “fuçando” por fora, observando, aprendendo primeiro, antes de mostrar-se. Há, aí, o medo da exposição, o medo de assumir que não sabe lidar com a ferramenta.

6. Medo da não-pertinência - É o medo que advém quando o aprendiz percebe-se um “estranho no ninho”. Um técnico, em meio a acadêmicos, por exemplo. Um poeta, no meio de matemáticos. Um leigo, no meio de professores de renome. Um leigo,em meio a especialistas em determinado tema. Com receio do ridículo, do fazer feio, alguns aprendizes podem preferir se calar.

7. Temperamento natural - Ora, bolas. Se no mundo presencial há pessoas que não são muito mesmo de falar, porque no campo virtual elas são obrigadas a engolir as pílulas que a boneca Emília engoliu e tornarem-se uma “torneirinha de asneiras”, como descreveu Monteiro Lobato? Eu, por exemplo, teria dificuldades em ficar “calado”. Se eu me calar, podem apostar que há algum problema humano ou técnico (risos). Mas o oposto é real: há seres mais ouvintes do que falantes. Há, inclusive, profissionais pagos para apenas ouvirem - que o digam (ou não digam…) os psicanalistas gestálticos!

Por enquanto é isso. Em matéria de silêncio, creio que já falei por demais! Quem concordar, que grite em uníssono. Quem discordar, que fale ainda mais alto!

(Ney Mourão, tutor em cursos de Educação a Distância, costuma defender a idéia de que mais vale falar pouco e bem do que muito e pelos cotovelos - tanto no aprendizado virtual quanto no presencial!)