23 ago 2009

Descobertas

Em: Gestos e indigestões

embora
Há pouco, bem pouco,
descobri que o que eu julgava para sempre,
na verdade,
por pouco,
tornou-se nunca mais!

22 ago 2009

É só?

Em: Gestos e indigestões

Se morrer é só ir embora de mim, de tudo…
Não deve ser tão ruim assim,  contudo…

indo

11 jul 2009

Efeito estufa!?

Em: Geléia Geral - Tudo misturado e ao sugo

roberto_carlos
Show do Roberto Carlos… Em julho? Santo Deus! O tempo pirou? Isso é efeito do aquecimento global? Já é final de ano? E a Simone, cantando “Então é Natal”? E o John Lennon? Onde estou? Quem sou eu?

Ana Maria Braga, apresentadora do "Mais Você"

Ana Maria Braga, apresentadora do "Mais Você"

Há pouco, assistia ao ”Mais Você”, programa de variedades da Rede Globo, apresentado por Ana Maria Braga e pelo papagaio Louro José. Ela recebeu, em uma entrevista, um jovem, considerado por sua psicóloga como dotado de “altas habilidades”. A psicóloga representava o Institituto Rogério Steinberg. Segundo o site da instituição, com alto grau de reconhecimento no Brasil, o trabalho pode ser assim definido, em linhas bem gerais: “Pautado na Teoria das Múltiplas Inteligências de Howard Gardner, o IRS entende que a descoberta e a estimulação de talentos ou altas habilidades na população de baixa renda pode ser um fator transformador na medida em que são oferecidas melhores condições para o desenvolvimento do raciocínio e do potencial cognitivo e criativo”.

O que achei BASTANTE inadequado, no entanto, foi o emprego, POR MAIS DE UMA VEZ (o que evidencia convicção), do termo “muito bons”, para crianças e jovens com altas competências, pela psicóloga que esteve no Programa Mais Você. Ora, se as crianças “super dotadas” (outro termo infeliz, que foi utilizado por Ana Maria Braga), ou com altas habilidades, são “muito boas”, seriam as outras “ruins”. O que é ser “bom”?

O mais sério: ser “bom”, segundo a psicóloga, seria condição indispensável para a criança ser acolhida pela Instituição. Ela citou o exemplo de um jovem, que teria sido indicado pelo que lá estava, para participar dos programas da Instituição e ela haveria advertido: “Mas ele é BOM, mesmo? Para vir pra cá, ele tem de ser BOM MESMO!”

Quem acredita em uma educação inclusiva não deveria partir da premissa universal de que TODOS são bons? Acolher “apenas” os bons, em determinada visão, não é estimular uma postura perigosa, de sectarismo? A Educação, em sua essência, não é justamente um processo de validar, valorizar humanidades, humanizar valores? Como definir quem é “BOM”ou “MAL”,  por suas maiores ou menores habilidades? Os que teriam dificuldades de aprendizado deveriam estar, nesta visão, no extremo oposto, sendo cuidados, mas separados, em guetos dos “MUITO RUINZINHOS”?

Perdoem-me, os especialistas do IRS. O site da Instituição evidencia, sim, um grande trabalho social. Mas se ele é feito, partindo-se como premissa os “MUITO BONS”, trazendo-os à luz dos refletores, soou-me até como uma certa “seleção” às avessas, que um certo ditador alemão intencionou fazer, certa vez.

Ney Mourão - Que preferiria não ser tratado como “MUITO BOM”, “MUITO RUIM”, “NORMAL”, mas como um ser humano. Jornalista e educador que tenta acolher, sem distinção.

21 jun 2009

Inquietadamente inquieto

Em: Gestos e indigestões

soh1

Creio que a alma inquieta leva um tempo para perceber-se como tal. E, após perceber-se, outra existência para perceber que jamais se acomodará dentro do limitado espaço do corpo.

machadodeassis“Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas, ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões. Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos.”

Deus meu! E há ainda quem não goste de Machado de Assis!

21 jun 2009

Compensações

Em: Gestos e indigestões

lulaleleO consolo dos feios é serem exóticos…
O consolo dos idiotas é serem engraçadinhos…

Foto: Ney Mourão

Foto: Ney Mourão

Talvez a vida seja mesmo muito curta… Mas impressionantemente mais grandiosa que todas as pequenas coisas as quais atribuímos tolamente como imensas…

27 mai 2009

Reunião Produtiva S.A.

Em: Gestos e indigestões

reunioesAntes que os stakeholders tirem conclusões precipitadas sobre minhas participações em reuniões, uma advertência inicial, para a leitura desse post. Acredito nas reuniões como efetivo instrumento de planejamento, decisão, avaliação continuada. O que ocorre, no entanto, é que na maioria das vezes os atores sociais envolvidos no cenário das reuniões conspiram, por incapacidade ou por outras razões,  para que elas sejam tramas de insucesso, pouco produtivas e pouco eficazes. Contribuir para reuniões produtivas, evitar a dispersão, debater idéias e não conflitos pessoais,  é um desafio de todas as instituições e indivíduos, nem sempre logrado com êxito. 

Sempre que participo de reuniões, vem-me à lembrança uma “reunião” em particular. Recebi, certa vez, a colega Adriana Portella (hoje Senhora Hollenbeck), aqui, em Belo Horizonte, para uma “reunião” comigo. As aspas, aqui, são propositais.  Lembro-me que o objetivo primário da vinda era acertar algumas questões relativas à minha atuação no Programa Sua Escola a 2000 por Hora, uma iniciativa do Instituto Ayrton Senna, apoiada pela Microsoft Educação. Na época, eu era um dos consultores e ela era minha coordenadora, minha “chefa”. Risos. Novas aspas, e vocês entenderão por que e entenderão, também, o motivo de eu trazer esta história para convidar à reflexão sobre reuniões.

Bem, nossa reunião, em verdade, nunca “aconteceu”,  se pensarmos em uma reunião tradicional, formal, corporativa ou acadêmica. Fomos construindo o que precisávamos construir aos poucos. E aos poucos, mesmo! Como a Adriana passaria dois dias e meio aqui, daria tempo suficiente para que assim fosse. Então, sem perceber, fomos construindo o aprendizado de uma relação, que seria depois duradoura e que atravessaria as fronteiras do Programa Sua Escola.

Em um dos dias, falamos sobre a “arquitetura” do Programa. E isso nós falamos porque nos deparamos com as fachadas neoclássicas da Avenida Afonso Pena, no centro da cidade. E falamos um pouco da questão da ética e do cuidado entre educadores e jovens que estariam no Programa. Mas isto nós só falamos porque discutimos a questão de como o comércio apropriou-se das fachadas e as descaracterizou, com placas, letreiros e sujeira desrespeitosa a agressora à arquitetura neoclássica.

Em outro dos dias, falamos que as coisas, as relações nas escolas, mesmo que mediadas pela tecnologia, deveriam ter “sabor”. Mas falamos disso porque nosso paladar estava envolvido com um delicioso pastel de angu - coisa bem mineira, que quem não é destas bandas merece aprender (olha o aprendizado aí!) a conhecer. E falamos de temperos educativos, e falamos de pessoas alheias ao ambiente escolar, porque em nossa mesa havia um convidado, que não sabia de absolutamente nada do Programa, e percebemos a necessidade de acolhê-lo ao papo. E fizemos isto, entre pastéis e um papo sob os acordes de uma música das mais mineiras ao fundo.

Em outro dos dias, falamos de dificuldade de aprendizado e de lidar com novas tecnologias. Mas isso aconteceu porque eu, motorista com carteira recém-adquirida e carro comprado há apenas duas semanas, atrapalhei-me todo para colocar o bendito entre as pilastras de um estacionamento, enquanto ela, de forma gentil, demonstrando total empatia, contava-me que, no início, também para ela fora assim, que evitava passar em locais difíceis e que, como eu, naquele momento, nem sequer imaginava o que seria a instrução “desfazer todo o jogo”, já que estávamos em um carro e não em uma mesa de pôquer. E falamos do cuidado que aquele que acha que sabe mais deve ter com aquele que acredita que sabe menos, a adequação de linguagem, a contextualização de conteúdos. E aprendemos, juntos, naquele momento, a caminho de mais um roteiro pela cidade.

Em outro dos dias, falamos de alegria e cor e falamos também de como as escolas deveriam integrar-se, respeitando as suas peculiaridades. Mas isso foi motivado porque assistíamos a um encontro de bandas que acontecia na Praça da Liberdade. Nome lindo, não? E, pasmem! Fomos à Praça da Liberdade, para conhecer suas centenárias palmeiras imperiais, seus jardins inspirados na França e o encontro de bandas foi uma surpresa, não prevista em nosso encontro do dia. E, naquele dia, havíamos “decidido” que era hora, finalmente, de finalizarmos a tal reunião. Foi aí que percebemos, com doçura e alma, que a reunião já havia acontecido. Que tudo o que precisávamos construir já havia sido contruído - e o melhor, introjetado, porque havia vindo do coração, dos sentidos, da relevância que têm as coisas que nascem com naturalidade.

Nunca mais tive uma reunião como aquela. Pelo contrário. Meu paradigma de reuniões é algo como o paradigma que devem ter as crianças sobre uma aula chata e sem interesse. Necessárias, elas entendem, mas com uma suspeita de que “poderia, sim, ser diferente e melhor”. Eu e Adriana, naquela ocasião, não “decidimos” que seria daquela forma. Demo-nos a oportunidade de que assim fosse. Demo-nos a oportunidade de experimentar um caminho, com responsabilidade de adultos que podem construir e desmontar a caixa de sonhos como crianças.

Emociono-ne ao escrever este texto, lembrando-me da carinha de minha amiga que me deu a graça de uma reunião regada a pastéis de angus e sabores. Pontilhada de alegrias e acordes de bandas e metáforas de aprendizado. Nada de cinza. Nada de rigidez. Uma confissão final, para total escândalo dos mais puristas: não usei, em nenhum momento da longa reunião com minha coordenadora, papel e caneta. Não fiz nenhuma anotação. Mas, senhores… Senhoras… Jamais me esqueci de tudo o que conversamos e seria capaz, hoje, de dizer cada palavra do que construímos e cada ação prática que aqueles momentos originaram em minha ação profissional!

(Foto: “Migrant Mother”, Dorothea Lange, 1936)

(Foto: “Migrant Mother”, Dorothea Lange, 1936)

Em seu mês, a todas as mães,
desejos de muitas felicidades.

Aos filhos,
Um pedido especial…

Se te escapares a beleza e a magia das cores de cada novo dia,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se te faltares o doce som do riso, a brisa tépida das manhãs, as cores dos
olhos das crianças,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se acaso não encontrares a rima rica da esperança, a suave crença no que
virá,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, por um momento sequer, dirigir teu olhar a um irmão com outro sentimento que não seja o amor fraternal entre filhos do mesmo ventre cósmico,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se começares a desacreditar dos homens, na sua possibilidade infinita de
bondade, encarando o Planeta como um campo universal de falta de fé e
futuro,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, em meio aos teus projetos de vida, constar apenas desejos de glória,
fama, ambição, dinheiro e posses,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, há muito, não abraças um irmão, não diriges a ninguém um gesto de
carinho, não brincas com teu filho, não sorri para teus superiores ou
subordinados,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, há muito, não sabes da doce alegria de um afago nos cabelos e a passagem dos anos é apenas um amontoado de dias que se sucedem como um vendaval apressado,
vai ao colo de tua mãe, menino!

E se já te faltas a presença física, em tua vida, desse cálido colo a
conduzir-te pela estrada da Esperança, escolhe um lugar sereno, onde possas ouvir com calma teu coração.
E, em silêncio, ouve o eco de um outro coração,
que bate com vigor e te acalenta em todos os momentos.
É, com certeza, o coração dela, em algum lugar do infinito mistério, a aguardar e velar por ti, em cada momento do teu dia, sempre dizendo, com emoção:
“Vem, filho… Vem ao colo de tua mãe, menino”!

(Ney Mourão)