Na novela “Viver a Vida”, atual folhetim dramatúrgico de Manoel Carlos, na Rede Globo, às nove da noite, há alguns capítulos uma cena forte causou polêmica. A personagem Helena (única de quem sei o nome, por não estar acompanhando com fidelidade e por ser mesmo péssimo para guardar nomes), após um desentendimento com sua oponente, recusa-se a viajar com ela, no exterior. Separadas, sua oponente sofre um grave acidente e corre o risco de ficar tetraplégica. A mãe da acidentada visita Helena e, em uma cena carregada de carga dramática, Helena cai de joelhos, sentindo-se culpada por algo que foi puramente destino, pedindo perdão à mãe revoltosa e indignada. A mãe não aceita e ali, sem dó nem piedade, desfecha uma bofetada na ajoelhada aos seus pés. Só faltou dar uma cusparada no rosto, para a cena ser ainda mais real e violenta. O drama põe o calor aguardado à trama, até então morna de provocar bocejos.
Até aí, nada demais. Só que a personagem que cai de joelhos e leva o tapa é… negra!!! E a personagem que esbofeteia, com fúria uterina é… branca!!! Pronto! Formou-se o quadro necessário para a polêmica! Têm surgido, pela internet - e mais especificamente em minha caixa de emails, diversas mensagens indignadas, de pessoas ligadas a movimentos de defensores ds direitos negros, criticando a cena, atribuindo-lhe uma metáfora à dominação do branco sobre o negro, do negro ajoelhado e escravizado, do racismo “dominante” no país. Luciana Brito, Mestre em História pela UNICAMP, do Movimento Negro Unificado da Bahia, chega a usar uma expressão irônica, dizendo que finalmente a Globo teria colocado a Helena negra “em seu lugar”- a de oprimida e vítima de racismo.
Sei que talvez todos os hacker negros do país infestem esse blog, mas não contenho a minha coceira digital em expressar a opinião a respeito.
Sinceramente, acho um tremendo exagero essa história. Tenho raízes negras. No Censo, afirmo-me como negro. Mas acho que há, por parte de muitos negros, um “racismo às avessas”. Certa vez, em sala de aula, eu disse que a situação estava preta e uma chata de galochas, dessas que respira e transpira o tempo inteiro discursos pseudo-defensores exagerados disse que essa é uma expressão racisa e que eu deveria ser processado por dizê-la. Perguntei a ela se, caso ela dissesse que alguém havia ficado “branco de susto” ou “branco de fome”, qual seria a pena pela besteira igualmente racista. Ou, se alguém soltasse um “amarelou”, deveria ser levado ao açoite, já que, seguramente, é um nipo-racismo ou algo tremendamente pejorativo contra a raça amarela.
Ora, há racismo, sim. Isso é inegável. Tratamos diferenciadamente um negro, nas mesmas situações de um banco. Fechamos instintivamente nossos vidros de automóveis, ao passar um negro correndo no sinal e levamos menos tempo a fazê-lo, caso o delinquente (mesmo) seja louro, de olhos azuis. Mas não há racismo em tudo e em todos os momentos. Ficamos brancos de susto, porque fcamos, de fato, sem oxigenação e nossas faces se tornam pálidas. Roxos de vergonha, porque nossos rostos se enrubescem e a tonalidade da pele fica arroxeada. Amarelamos, não porque nos tornamos japoneses, mas porque nossa tonalidade facial, quando amedrontados em excesso, é efetivamente pálida. Do ponto de vista holístico, inclusive, há explicações para essas cores, ligadas ao espectro da aura, dos chacras. Mas isso já são outras discussões, que envolvem crença, campo também perigoso, e que me abstenho de tocar nesse fórum. A coisa está preta porque tornou-se desprovida de cores. E a ausência de cores, sinto mito, não é branca. O branco, no espectro, é a presença de todas elas. Isso é Física. Não é racismo. Quando retiramos o colorido das coisas, elas se tornam pretas. No máximo, teria que tomar cuidado com a palavra “negra” para a coisa sem cor, já que negro, em língua portuguesa, e apenas em língua portuguesa há essa diferenciação, é o nome da raça.
No caso da novela, eu não traço aqui nenhuma defesa, já que não tenho acompanhado fielmente. Mas a cena em si, bastante forte e emocionante, eu vi, e não tem absolutamente nada a ver com racismo. Quem estava de joelhos era uma mulher que assumia para si a culpa por ter deixado em outro veículo uma pessoa a quem a mãe (por infeliz coincidência, a ex-esposa do seu atual parceiro) havia-lhe concedido a confiança do cuidado. Ora, quem estava de joelhos podia ser negra, japonesa, hindu (talvez o autor não tenhm colocado por que já estávamos cansados de tanto hindu na tela - Harebaba!), javanesa ou, pasmem, BRANCA! E quem deu a bofetada não batia em uma negra de joelhos, mas era uma mãe, que há pouco havia recebido a notícia de que a filha estaria condenada eternamente a uma cama, tetraplégica e dependente de totais cuidados. Uma filha mimada, sim. Uma filha para quem ela tinha projeções de sonhos e que via, na sua frente, a culpada pelo fato. A Helena que cai de joelhos poderia ser um homem, um homossexual. Nossa, nesse caso, os movimentos gays estariam em polvorosa, certamente, dizendo que a cena teria sido homofóbica e que “é sempre assim no país que espanca homossexuais, que coitadinho do homossexual, que coisa hedionda…”.
A mulher que estapeia poderia ser qualquer mãe inconformada que encontra uma maneira de dizer não a um pedido de perdão. Detalhe, para quem lê estas críticas “eloquentes” e defensoras de uma moral negra abalada e vilipendiada: foi Helena quem deu o primeiro tapa. A negra foi qem desferiu, em uma briga, após ser agredida verbalmente pela branca mimada e prepotente, um furioso tapa. A mãe branca (que poderia ser chinesa) soube do fato e ali, na lata, aproveitando-se da fragilidade de uma mulher que se sentia culpada, ajoelhada e indefesa, “devolveu” a bofetada.
Vi, ali, dois seres humanos. Mulheres. Em uma vigorosa cena. Forte e violenta, sim. Mas muito menos violenta, talvez, do que os desenhos animados que a mesma emissora transmite nas manhãs e que ninguém presta a menor atenção porque está no trabalho e deixou seus filhinhos à mercê dos negros aparelhos - negros, nesse caso, refiro-me, com ironia proposital, às telas de LCD dos lares da classe média brasileira.
Já que a Mestre em História usou a expressão “em seu lugar”, nesse caso específico deveria estar “em seu lugar”: no sofá de sua sala, de olhos bem atentos a um contexto geral, na sua telinha de LCD preta. A Globo não é flor que se cheire, convenhamos. E devemos, sim, ter uma leitura crítica dos meios de comunicação. Mas toda e qualquer leitura descontextualizada é perigosa. De brancos, de negros, de muçulmanos, de católicos ou seja lá de quem for. Inclusive de doutoras e mestras, negras ou brancas.
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