
Ana Maria Braga, apresentadora do "Mais Você"
Há pouco, assistia ao ”Mais Você”, programa de variedades da Rede Globo, apresentado por Ana Maria Braga e pelo papagaio Louro José. Ela recebeu, em uma entrevista, um jovem, considerado por sua psicóloga como dotado de “altas habilidades”. A psicóloga representava o Institituto Rogério Steinberg. Segundo o site da instituição, com alto grau de reconhecimento no Brasil, o trabalho pode ser assim definido, em linhas bem gerais: “Pautado na Teoria das Múltiplas Inteligências de Howard Gardner, o IRS entende que a descoberta e a estimulação de talentos ou altas habilidades na população de baixa renda pode ser um fator transformador na medida em que são oferecidas melhores condições para o desenvolvimento do raciocínio e do potencial cognitivo e criativo”.
O que achei BASTANTE inadequado, no entanto, foi o emprego, POR MAIS DE UMA VEZ (o que evidencia convicção), do termo “muito bons”, para crianças e jovens com altas competências, pela psicóloga que esteve no Programa Mais Você. Ora, se as crianças “super dotadas” (outro termo infeliz, que foi utilizado por Ana Maria Braga), ou com altas habilidades, são “muito boas”, seriam as outras “ruins”. O que é ser “bom”?
O mais sério: ser “bom”, segundo a psicóloga, seria condição indispensável para a criança ser acolhida pela Instituição. Ela citou o exemplo de um jovem, que teria sido indicado pelo que lá estava, para participar dos programas da Instituição e ela haveria advertido: “Mas ele é BOM, mesmo? Para vir pra cá, ele tem de ser BOM MESMO!”
Quem acredita em uma educação inclusiva não deveria partir da premissa universal de que TODOS são bons? Acolher “apenas” os bons, em determinada visão, não é estimular uma postura perigosa, de sectarismo? A Educação, em sua essência, não é justamente um processo de validar, valorizar humanidades, humanizar valores? Como definir quem é “BOM”ou “MAL”, por suas maiores ou menores habilidades? Os que teriam dificuldades de aprendizado deveriam estar, nesta visão, no extremo oposto, sendo cuidados, mas separados, em guetos dos “MUITO RUINZINHOS”?
Perdoem-me, os especialistas do IRS. O site da Instituição evidencia, sim, um grande trabalho social. Mas se ele é feito, partindo-se como premissa os “MUITO BONS”, trazendo-os à luz dos refletores, soou-me até como uma certa “seleção” às avessas, que um certo ditador alemão intencionou fazer, certa vez.
Ney Mourão - Que preferiria não ser tratado como “MUITO BOM”, “MUITO RUIM”, “NORMAL”, mas como um ser humano. Jornalista e educador que tenta acolher, sem distinção.
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