lanche-de-velorioDuas partidas me fascinaram, em 2008. Uma delas, já comentada à exaustão, a da comediante Dercy Gonçalves. Em meio às polêmicas sobre sua vida e trajetória artística – sobre as quais não quero me deter – momentos diferentes daquilo que nossa cultura habitualmente chama de “velar um corpo”. Uma bateria de escola de samba, marcando um ritmo alegre e cheio de energia; uma solenidade católica, em uma pequena cidade interiorana, sendo interrompida para dar lugar a um velório de uma mulher cuja marca registrada era o deboche aos ícones do tradicionalismo; um bloco carnavalesco entoando marchinhas; pessoas dizendo palavrões, “homenageando” a passagem do cortejo.

Alguns dias depois, em um canal de TV por assinatura, assisti a um documentário sobre o funeral de uma senhora que foi morta por um tiro, dado por um policial, na Guiana. Ela, membro da minoria negra, recebeu as homenagens de praxe na tradição da Guiana: festa, música alegre, dança, roupas coloridas, instrumentos musicais sonoros e um cortejo que lembra o nosso Carnaval. Bebida para regar o corpo, muita felicidade, para alegrar a alma. A explicação: liberto da carne, o espírito da senhora agora poderá encontrar-se com a essência divina. Liberta de todo sofrimento, não mais sofrerá as dores terrenas. E, sem nenhum traço de egoísmo, seus amigos e familiares comemoram. Seu filho sorri e recebe cumprimentos dos seus amigos. Toda lágrima é afastada por sorrisos, gargalhadas até. Não há apego. Lembram-se dela pelos momentos bons, lamentam seus infortúnios, mas têm a certeza de que ela está em melhores condições do que eles, viventes desse plano de aprendizado pela dor.

Confesso que invejei os dois funerais. Quisera eu também poder saber que, quando partir, meus amigos e familiares não experimentarão uma dor pungente, uma tristeza profunda. Ah, quem dera uma festa como aquela da Guiana. Quem dera saber que minha partida para outros planos, caso existam, será responsável pela promoção de um Carnaval. Ah, que delícia, em vez de lágrimas, pranto, gemidos, ter em minha partida derradeira os acordes vibrantes de uma bateria de escola de samba. Invadir ruas com meus acompanhantes e suas roupas vistosas, enquanto a platéia, estarrecida, vê passar a alegria de quem viveu cada dia com a certeza de uma fé inabalável de que vamos, de fato, alcançar outros planos melhores.

Na Guiana, as pessoas brindam, com convicção. Creio que isso, sim, é representação sublime de uma fé que para a nossa cultura é difícil de compreender. Mas não tentem compreender, amigos. Celebrem minha ida, com o vigor de quem desfila na avenida, entre fantasias, alegorias e adereços. Não sabemos o que há do outro lado, mas com certeza lamentarei apenas por vocês não estarem desfrutando comigo de um lugar novo e, espero, bom de se estar. Na despedida de Dercy, o refrão do samba dizia: Bravo, Bravíssimo! Imaginem chegar ao outro lado com esse coro, celebrando minha façanha de ter vivido em plenitude. Não sei da vida de Dercy. Não me interessa se foi boa ou vilã. Que esta discussão fique para quem não prestou atenção à festa e à celebração do futuro e quer apegar-se ao passado. Mas um coro desses é de dar inveja! Bravo, bravíssimo! Normalmente platéias dizem isso de pé, entre lágrimas não de tristeza, mas de euforia. É um momento em que os céus se abrem e os homens entram em sintonia com o Mágico, o Divino!

Nunca gostei de velórios e enterros. Nunca soube o que dizer ou fazer. Sempre senti, nos familiares, um hálito ruim, um cheiro exalante e estranho, que me enjoa e me incomoda. Não quero isso em minha partida. Quero um cortejo com música alegre e coros festivos. Nada de cheiro de flores murchas. Quero cheiro de pipoca novinha estalando, de amendoim praliné e coquinho com canela. Quero baianas oferecendo quitutes. Uma orgia de sabores, cheiros e sons de alegria!

Quero que venham à minha despedida os negros da Guiana, com suas vestes coloridas, seus lenços acenando, suas gargalhadas. Quero uma escola de samba e passistas e velhinhos sorridentes tocando marchinhas. Quero palhaços, circo e poetas, entoando canções pelos cotovelos. Quero uma bagunça gostosa, celebrando a partida para a certeza da paz e não para a incerteza e a eternidade do luto.

Estou impregnado de inveja. Doente de inveja. Talvez até morra, de tanta inveja. E, por favor, amigos, se eu morrer esta noite, de tanta inveja, respeitem meu último desejo e, amanhã, vistam-se para a melhor de todas as festas, enfeitem minha casa, encham a rua de alegria e abram alas, que eu estou a caminho de um certo, bom e belo lugar onde, um dia, com certeza, esperarei por vocês.