
Creio que a alma inquieta leva um tempo para perceber-se como tal. E, após perceber-se, outra existência para perceber que jamais se acomodará dentro do limitado espaço do corpo.
“Escobar veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o fundo do quintal. A alma da gente, como sabes, é uma casa assim disposta, não raro com janelas para todos os lados, muita luz e ar puro. Também as há fechadas e escuras, sem janelas, ou com poucas e gradeadas, à semelhança de conventos e prisões. Outrossim, capelas e bazares, simples alpendres ou paços suntuosos.”
Deus meu! E há ainda quem não goste de Machado de Assis!
O consolo dos feios é serem exóticos…
O consolo dos idiotas é serem engraçadinhos…

Foto: Ney Mourão
Talvez a vida seja mesmo muito curta… Mas impressionantemente mais grandiosa que todas as pequenas coisas as quais atribuímos tolamente como imensas…
Antes que os stakeholders tirem conclusões precipitadas sobre minhas participações em reuniões, uma advertência inicial, para a leitura desse post. Acredito nas reuniões como efetivo instrumento de planejamento, decisão, avaliação continuada. O que ocorre, no entanto, é que na maioria das vezes os atores sociais envolvidos no cenário das reuniões conspiram, por incapacidade ou por outras razões, para que elas sejam tramas de insucesso, pouco produtivas e pouco eficazes. Contribuir para reuniões produtivas, evitar a dispersão, debater idéias e não conflitos pessoais, é um desafio de todas as instituições e indivíduos, nem sempre logrado com êxito.
Sempre que participo de reuniões, vem-me à lembrança uma “reunião” em particular. Recebi, certa vez, a colega Adriana Portella (hoje Senhora Hollenbeck), aqui, em Belo Horizonte, para uma “reunião” comigo. As aspas, aqui, são propositais. Lembro-me que o objetivo primário da vinda era acertar algumas questões relativas à minha atuação no Programa Sua Escola a 2000 por Hora, uma iniciativa do Instituto Ayrton Senna, apoiada pela Microsoft Educação. Na época, eu era um dos consultores e ela era minha coordenadora, minha “chefa”. Risos. Novas aspas, e vocês entenderão por que e entenderão, também, o motivo de eu trazer esta história para convidar à reflexão sobre reuniões.
Bem, nossa reunião, em verdade, nunca “aconteceu”, se pensarmos em uma reunião tradicional, formal, corporativa ou acadêmica. Fomos construindo o que precisávamos construir aos poucos. E aos poucos, mesmo! Como a Adriana passaria dois dias e meio aqui, daria tempo suficiente para que assim fosse. Então, sem perceber, fomos construindo o aprendizado de uma relação, que seria depois duradoura e que atravessaria as fronteiras do Programa Sua Escola.
Em um dos dias, falamos sobre a “arquitetura” do Programa. E isso nós falamos porque nos deparamos com as fachadas neoclássicas da Avenida Afonso Pena, no centro da cidade. E falamos um pouco da questão da ética e do cuidado entre educadores e jovens que estariam no Programa. Mas isto nós só falamos porque discutimos a questão de como o comércio apropriou-se das fachadas e as descaracterizou, com placas, letreiros e sujeira desrespeitosa a agressora à arquitetura neoclássica.
Em outro dos dias, falamos que as coisas, as relações nas escolas, mesmo que mediadas pela tecnologia, deveriam ter “sabor”. Mas falamos disso porque nosso paladar estava envolvido com um delicioso pastel de angu - coisa bem mineira, que quem não é destas bandas merece aprender (olha o aprendizado aí!) a conhecer. E falamos de temperos educativos, e falamos de pessoas alheias ao ambiente escolar, porque em nossa mesa havia um convidado, que não sabia de absolutamente nada do Programa, e percebemos a necessidade de acolhê-lo ao papo. E fizemos isto, entre pastéis e um papo sob os acordes de uma música das mais mineiras ao fundo.
Em outro dos dias, falamos de dificuldade de aprendizado e de lidar com novas tecnologias. Mas isso aconteceu porque eu, motorista com carteira recém-adquirida e carro comprado há apenas duas semanas, atrapalhei-me todo para colocar o bendito entre as pilastras de um estacionamento, enquanto ela, de forma gentil, demonstrando total empatia, contava-me que, no início, também para ela fora assim, que evitava passar em locais difíceis e que, como eu, naquele momento, nem sequer imaginava o que seria a instrução “desfazer todo o jogo”, já que estávamos em um carro e não em uma mesa de pôquer. E falamos do cuidado que aquele que acha que sabe mais deve ter com aquele que acredita que sabe menos, a adequação de linguagem, a contextualização de conteúdos. E aprendemos, juntos, naquele momento, a caminho de mais um roteiro pela cidade.
Em outro dos dias, falamos de alegria e cor e falamos também de como as escolas deveriam integrar-se, respeitando as suas peculiaridades. Mas isso foi motivado porque assistíamos a um encontro de bandas que acontecia na Praça da Liberdade. Nome lindo, não? E, pasmem! Fomos à Praça da Liberdade, para conhecer suas centenárias palmeiras imperiais, seus jardins inspirados na França e o encontro de bandas foi uma surpresa, não prevista em nosso encontro do dia. E, naquele dia, havíamos “decidido” que era hora, finalmente, de finalizarmos a tal reunião. Foi aí que percebemos, com doçura e alma, que a reunião já havia acontecido. Que tudo o que precisávamos construir já havia sido contruído - e o melhor, introjetado, porque havia vindo do coração, dos sentidos, da relevância que têm as coisas que nascem com naturalidade.
Nunca mais tive uma reunião como aquela. Pelo contrário. Meu paradigma de reuniões é algo como o paradigma que devem ter as crianças sobre uma aula chata e sem interesse. Necessárias, elas entendem, mas com uma suspeita de que “poderia, sim, ser diferente e melhor”. Eu e Adriana, naquela ocasião, não “decidimos” que seria daquela forma. Demo-nos a oportunidade de que assim fosse. Demo-nos a oportunidade de experimentar um caminho, com responsabilidade de adultos que podem construir e desmontar a caixa de sonhos como crianças.
Emociono-ne ao escrever este texto, lembrando-me da carinha de minha amiga que me deu a graça de uma reunião regada a pastéis de angus e sabores. Pontilhada de alegrias e acordes de bandas e metáforas de aprendizado. Nada de cinza. Nada de rigidez. Uma confissão final, para total escândalo dos mais puristas: não usei, em nenhum momento da longa reunião com minha coordenadora, papel e caneta. Não fiz nenhuma anotação. Mas, senhores… Senhoras… Jamais me esqueci de tudo o que conversamos e seria capaz, hoje, de dizer cada palavra do que construímos e cada ação prática que aqueles momentos originaram em minha ação profissional!

(Foto: “Migrant Mother”, Dorothea Lange, 1936)
Em seu mês, a todas as mães,
desejos de muitas felicidades.
Aos filhos,
Um pedido especial…
Se te escapares a beleza e a magia das cores de cada novo dia,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se te faltares o doce som do riso, a brisa tépida das manhãs, as cores dos
olhos das crianças,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se acaso não encontrares a rima rica da esperança, a suave crença no que
virá,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, por um momento sequer, dirigir teu olhar a um irmão com outro sentimento que não seja o amor fraternal entre filhos do mesmo ventre cósmico,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se começares a desacreditar dos homens, na sua possibilidade infinita de
bondade, encarando o Planeta como um campo universal de falta de fé e
futuro,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, em meio aos teus projetos de vida, constar apenas desejos de glória,
fama, ambição, dinheiro e posses,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, há muito, não abraças um irmão, não diriges a ninguém um gesto de
carinho, não brincas com teu filho, não sorri para teus superiores ou
subordinados,
vai ao colo de tua mãe, menino!
Se, há muito, não sabes da doce alegria de um afago nos cabelos e a passagem dos anos é apenas um amontoado de dias que se sucedem como um vendaval apressado,
vai ao colo de tua mãe, menino!
E se já te faltas a presença física, em tua vida, desse cálido colo a
conduzir-te pela estrada da Esperança, escolhe um lugar sereno, onde possas ouvir com calma teu coração.
E, em silêncio, ouve o eco de um outro coração,
que bate com vigor e te acalenta em todos os momentos.
É, com certeza, o coração dela, em algum lugar do infinito mistério, a aguardar e velar por ti, em cada momento do teu dia, sempre dizendo, com emoção:
“Vem, filho… Vem ao colo de tua mãe, menino”!
(Ney Mourão)
Mais algumas divagações sobre meu tema predileto: a liderança…
Uma verdadeira equipe não é um aglomerado de pessoas reunidas pelo medo, necessidade ou anseio por vitórias sobre outros. Uma equipe é mais que mera reunião. É uma junção de pessoas fortalecidas por laços orgânicos. O que define uma equipe é a causa comum que consegue acolher visões diferenciadas. O que define uma equipe é a capacidade de somar diferenças. O que define uma equipe de sucesso é a capacidade conjugada de abdicar de interesses pessoais em favor de uma soma de competências. E tudo isto, não necessariamente para grandes obras, grandes feitos ou atos revolucionários. É no cotidiano, nas pequenas coisas que se constrói a teia, que se solidificam os elos, que se acomodam as pedras da estrutura.
Toda equipe precisa de um ou mais líderes. Erra quem acha que eles são os mais importantes da cadeia formadora da equipe. Eles são os que validam a importância de todos. São melhores líderes os que conseguem captar, dentre a banalidade habitual do cotidiano, os valores e relevâncias de cada pessoa e, descobertos esses valores, fazer com que eles aflorem, num belo manancial de força e mobilização. Desconfiem dos líderes que sempre dão ordens. Os melhores mobilizam talentos e vontades. O verdadeiro líder raramente precisa mandar, pois seu esforço por fazer nascer na equipe o desejo duma colaboração voluntária é sempre coroado.
Eis o desafio: dizer cada vez menos o EU imperativo e assumir o NÓS colaborativo. Esta é uma mentalidade transformadora. Esta é uma postura capaz de construir impérios solidificados na ética, na verdade, no bem e no belo. Grandes líderes humanitários ensinaram, ao longo da História humana a construção alicerçada no acolhimento de diferenças, na soma dos valores individuais – sem contradizer o anseio pelo fortalecimento do tecido coletivo. Assim, conseguiram transcender-se e transcender. Assim, realmente foram exemplo a seguir. Conseguiam construir EQUIPES, TIMES vencedores, cujas histórias ficaram e ficarão na História, como lembranças suaves a embalar os corações e almas. Todos os demais foram apenas chefes, perdidos em suas ilhas de ilusão e reconhecimento efêmero.
O líder é o que sabe canalizar sentidos em prol do outro. Saber abrir os braços para o toque. Saber usar as pernas para caminhar ao encontro. Saber distinguir os aromas dos receios e o sabor das conquistas. E, acima de tudo, saber OUVIR! Ouvir o outro, saber de suas necessidades, saber de suas falas, perceber o que es esconde nas entrelinhas do que é dito e no silêncio do não-dito.
Investir na força da liderança verdadeira é tarefa que toda organização que almeja o sucesso deve ter em suas ações. Desafios e dificuldades se impõem, é claro. É fácil para um líder se deixar embalar pela falsa sedução do comando. Mas cabe aos líderes o papel diferenciado de, pelo menos, TENTAR um mundo melhor!
Eu ainda quero lambuzar as frias paredes
com o calor de versos.
Eu ainda teimo em sonhar rimado
sincopado e triste às vezes
débil e fraco em certezas em outras.
Eu caminho entre estrofes,
trôpego, feito quem bebeu estrelas pela noite.
Eu trafego entre o rio manso
e o mar devorador
à procura de restos de desejos
e os transformo em palavras.
Algumas soam incompreensíveis.
Outras aceleram pulsações.
Eu imagino sonetos
e por vezes os perco, aqui, ali,
no bolso da calça,
na trilha de pedras
na correria do ônibus que acabou de passar.
Hoje eu ainda quero construir rimas
desejo caduco, esse da pena
- dá pena, até!
Eu ainda teimo
e tremo, só de pensar que um dia venha a desistir.
Eu insisto, persisto e respiro.
Golfadas, de um gole.
Babo reflexos da lua.
Eu não bebo quase nada,
mas tenho sempre esta ressaca na alma.
Eu ainda quero lambuzar esta vida
de doce poesia
de doce…
Poesia!
(Minha homenagem ao Dia Nacional da Poesia e do Poeta - 14 de março)

Foto: Ney Mourão
Bem-aventuradas todas as mulheres…
Bem-aventuradas as fortes e as carentes…
As que clamam por afagos e afeição…
As que amam seus filhos, com devoção,
As que imploram por justiça e pão.
Bem-aventuradas todas as mulheres,
De raça, de fibra e de cor,
Multifacetadas, plurais e únicas,
Obras de arte do Criador…
Bem-aventuradas as mulheres
Que sentem na carne a dor
Do parto, da partida, das despedidas e chegadas.
Bem-aventuradas todas, todas as mulheres…
As bem nascidas, as mal-amadas…
As donas de casa, as donas do mundo…
As donas do próprio nariz…
Bem-aventuradas as mulheres…
As que andam corretas, as que se perdem por um triz…
Bem-aventuradas as filhas, as mães,
Bem-aventuradas as estéreis, as de espíritos santos…
As que amamentam e cuidam…
Bem-aventuradas as pacientes, as impacientes,
As doutoras e doentes…
Bem-aventuradas as mulheres…
As normais, as loucas, as cientes…
Bem-aventuradas as que aprendem
As que ensinam, as que já nascem sabendo…
Bem-aventuradas todas as mulheres…
Bem-aventurada você!!!
(Ney Mourão - Do livro “Notas Dispersas pelas Paredes”)
Às leitoras do meu blog, meu abraço, com carinho!
Em verdade, em verdade vos digo:
Diga-me como mandas,
e eu vos direi quem sois!
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